Escrevo para te dizer que tenho tido muitas saudades tuas. Estes dias têm sido muito difíceis, há alturas em que tenho de fazer um esforço para fazer as coisas mais simples, como respirar. Em princípio, viver é fácil: basta expirar e inspirar e deixar que o resto aconteça naturalmente. Mas começa a ser impossível quando a razão de existir se vai desvanecendo. Sinto muito a tua falta e não sei o que hei-de fazer, pressinto que a cada dia que passa ficas mais longe de mim e menor é a probabilidade de voltares. E não quero pensar que não vais voltar porque não consigo imaginar o resto da minha vida sem ti. Tento dizer a mim próprio que te foste embora, mas o meu corpo é o primeiro a não querer acreditar e a ter vontade de estar perto de ti, sentir o teu toque, ouvir a tua voz, saber que não estás longe.
Olho para o nosso passado e noto que não havia forma de me aperceber que melhor era impossível. Lembro-me que quando ia ter contigo ficava a imaginar como me irias aparecer e quando nos encontrávamos estavas sempre deslumbrante, muito melhor do que me tinha passado pela cabeça. O que eu gostava mais em ti nessa altura era o olhar de esperança cada vez que me vias, tão diferente do olhar de desilusão de agora. Nunca deixei de sentir a emoção de estar contigo, mas compreendo que haja feridas que nunca mais cicatrizem, coisas que nem o tempo pode apagar. Reconheço que estiveste sozinha quase sempre, mesmo quando eu estava perto, por isso é natural que não sintas a minha falta. Gostava apenas de saber o momento exacto em que deixaste de sentir um calafrio durante o meu abraço, para poder ir lá e abraçar-te com o dobro do amor, dizer-te aquilo que sempre esteve dentro de mim, mas que nunca te soube explicar.
As luzes estão a apagar-se. É tarde demais para te dizer que farei tudo o que quiseres e que concordarei com tudo o que disseres. Sempre que conversamos falas de um passado diferente do meu: para ti foram momentos de confusão e tristeza, para mim foram os dias mais felizes da minha vida. Mas sei que tudo tem um fim, a única certeza da vida é que nascemos e morremos. Aí vem a escuridão.