quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
O teu irmão morreu
- depois falamos melhor, ainda temos muito tempo
acho que terias ficado surpreendido com esta minha reacção, apesar de teres sido a pessoa que mais me compreendeu na vida e apesar de nunca termos conseguido comunicar: andámos sempre desencontrados, quando eu me aproximei estavas demasiado ocupado a dizeres uma frase sonante e a desapareceres, quando tu te aproximaste eu estava longe, a odiar as frases sonantes que não me diziam nada, eu sempre a pensar que estavas a falar de outra coisa qualquer, a finalizar a conversa de forma curta e simples, tu destroçado porque pensaste que eu tinha compreendido
- estou muito doente, estou muito doente
viveste a tua vida de maneira perigosa, sem medo de nada a não ser dos fantasmas que sempre te atormentaram, hoje estás finalmente livre de todos eles e invejo-te por isso, sem os mitos ou as pressões para respeitares o legado do pai ou da família, sem a gente invejosa e mesquinha que pulula por este mundo, agora apenas lamento a nossa última conversa
- sempre gostei muito de ti, depois falamos melhor, ainda temos muito tempo
não sei porque disse isso, ambos sabíamos que já não havia tempo, foi mais uma coisa estúpida de se dizer, quando podia antes ter dito que a única coisa que eu sempre quis na vida foi um elogio teu, a tua permissão, a tua preocupação, podias ter ficado a saber que era nos teus braços que eu me sentia verdadeiramente seguro
- sempre gostei muito de ti
tu disseste que sabias, mas hoje não sei se nessa altura sabias mesmo, ou se em algum momento da tua vida soubeste, eu terminei novamente a conversa de forma curta e simples, tu choraste e eu devo ter dito mais um par de banalidades, quando devia mesmo era ter-te contado que foste o meu herói, para depois falarmos das coisas importantes que sempre nos passaram ao lado.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Insónia
A certa altura há uma música que começa a tocar, uma qualquer valsa vinda dos salões luxuosos de alguns séculos atrás. A cadeira de baloiço solitária, debaixo de espelho, repete em êxtase o mesmo gesto monótono ao som do rinchar compassado dos pés estendidos contra o chão de madeira. Na parede escura junto à porta, as pinturas deformadas dos quadros abstractos parecem querer libertar-se do seu sonho imaginário e tomar conta do mundo cinzento cá de fora. As cortinas cheias de flores tapam completamente a janela e, com ela, as mil luzes da cidade – do meio dos desenhos, em vez do jardim, aparecem caras horríveis a suplicar por clemência, soltando gritos mudos e pedindo-me ajuda. Eu escondo-me debaixo dos lençóis e adormeço cobardemente, como se tudo aquilo fosse apenas fantasia.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Se eu morresse hoje
- pai, pai, onde está o pai?
tu a contares aterrorizada os dias que faltam para o Dia do Pai, onde todos na escola fazem cartões com corações para dar aos pais, onde todos falam de tudo sobre os pais, tu envergonhada num canto a implorar que ninguém repare em ti, mas quando chega a tua vez de falar atrapalhas-te e os olhos do mundo fixam-se em ti,
- não tens pai?
como se fosses um bicho raro numa feira de curiosidades, a professora a querer saber todos os pormenores sórdidos, todos virados para ti com os olhos bem abertos à espera que uma lágrima tua os console e complete o espectáculo, a certa altura fazes-lhes a vontade, todos ficam finalmente sossegados, eles para sempre a olhar para ti com pena e caridade, tu a odiar essa palavra que gostarias que não existisse
- pai, ela não tem pai, não tens pai?
os amigos e família vão passar o tempo a falar-te das minhas qualidades, como se eu não tivesse defeitos, como se os meus continuados falhanços não tivessem importância, tu com raiva de quem se atreveu a falar mal de mim, mas com mais raiva ainda desse mito que não te deixa respirar e que te pesa mil toneladas em cima dos ombros, a tentares ser a sombra de alguém que nunca existiu, tu num canto qualquer a dizeres baixinho essa palavra sagrada e profana
- pai, pai, pai...
Nota: O blog Orgulhosamente Mau Feitio teve a gentileza de dar a este texto o primeiro prémio num passatempo que realizou. Os meus humildes agradecimentos. Aconselho os meus leitores a visitarem este blog, que está muito bem concebido.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Metamorfose
Fiquei ali deitado na escuridão, mas com os olhos bem abertos. Uma minúscula voz dentro de mim grita alto, num último suspiro, insistindo para que eu resista. Cada movimento da minha respiração é um hino de fortaleza que vai crescendo a cada segundo, por isso inspiro antes de me afundar e o ar que expiro é um farol que me guiará à paz grandiosa dos salmos.
Fecha os teus olhos neste instante, agora sente-me, apenas tu e eu, sente a tua tatuagem na minha alma, ouve os segredos que ando a guardar para ti, saboreia os suspiros que me incriminam, olha bem para a minha luz na escuridão e repara que assim consegues ver-me como sempre desejaste que eu fosse.
Fecho os meus olhos neste instante, sinto-te agora, apenas eu e tu, não sei em que parte de mim estás, mas ouço o mar à minha frente, sinto o teu gosto a sal na minha boca, a doce brisa do nosso amor acaricia-me a face e finalmente consigo ver-te como sempre sonhei que serias.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Chuva de Maio
terça-feira, 11 de novembro de 2008
O meu conto de fadas
Quando me pediste para dançar, só eu parecia estar ligeiramente alegre. Foi a única vez que me apertaste junto a ti da forma certa, como um homem a sério deve apertar uma frágil donzela (tu sempre achaste que eu devia ser uma segunda mãe). Confundiste-me - ou foi o álcool, já não sei nada. A partir daquele momento fiquei eternamente tua, apesar de todos os homens a sério que depois me quiseram, apesar de te teres continuado a encontrar com as mulheres fáceis daquelas festas ridículas, apesar de desde o início nunca ter duvidado que todos estes anos seriam um desperdício. A tua mãe sempre em nossa casa, a fingir-se de doente, a querer ser a tua única e verdadeira mãe, eu no psicanalista a tentar procurar na infância a resposta para as minhas depressões, tu numa qualquer bar a pedir duas ou três bebidas de uma só vez.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O amor
Já aprendi muito nos dias de dor e ressentimento e saudade e paranóia e mágoa, agora apenas eu ditarei as leis do amor. Tudo o que sou e tudo o que sempre fui estão no que aprendi até agora, por isso agora não quero que me leiam a palma da mão, não quero mais lições, não quero que me indiquem o caminho ou me falem da verdade, quero apenas ficar aqui no chão sem esperar que alguém se deite ao meu lado.