terça-feira, 25 de novembro de 2008
Se eu morresse hoje
- pai, pai, onde está o pai?
tu a contares aterrorizada os dias que faltam para o Dia do Pai, onde todos na escola fazem cartões com corações para dar aos pais, onde todos falam de tudo sobre os pais, tu envergonhada num canto a implorar que ninguém repare em ti, mas quando chega a tua vez de falar atrapalhas-te e os olhos do mundo fixam-se em ti,
- não tens pai?
como se fosses um bicho raro numa feira de curiosidades, a professora a querer saber todos os pormenores sórdidos, todos virados para ti com os olhos bem abertos à espera que uma lágrima tua os console e complete o espectáculo, a certa altura fazes-lhes a vontade, todos ficam finalmente sossegados, eles para sempre a olhar para ti com pena e caridade, tu a odiar essa palavra que gostarias que não existisse
- pai, ela não tem pai, não tens pai?
os amigos e família vão passar o tempo a falar-te das minhas qualidades, como se eu não tivesse defeitos, como se os meus continuados falhanços não tivessem importância, tu com raiva de quem se atreveu a falar mal de mim, mas com mais raiva ainda desse mito que não te deixa respirar e que te pesa mil toneladas em cima dos ombros, a tentares ser a sombra de alguém que nunca existiu, tu num canto qualquer a dizeres baixinho essa palavra sagrada e profana
- pai, pai, pai...
Nota: O blog Orgulhosamente Mau Feitio teve a gentileza de dar a este texto o primeiro prémio num passatempo que realizou. Os meus humildes agradecimentos. Aconselho os meus leitores a visitarem este blog, que está muito bem concebido.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Metamorfose
Fiquei ali deitado na escuridão, mas com os olhos bem abertos. Uma minúscula voz dentro de mim grita alto, num último suspiro, insistindo para que eu resista. Cada movimento da minha respiração é um hino de fortaleza que vai crescendo a cada segundo, por isso inspiro antes de me afundar e o ar que expiro é um farol que me guiará à paz grandiosa dos salmos.
Fecha os teus olhos neste instante, agora sente-me, apenas tu e eu, sente a tua tatuagem na minha alma, ouve os segredos que ando a guardar para ti, saboreia os suspiros que me incriminam, olha bem para a minha luz na escuridão e repara que assim consegues ver-me como sempre desejaste que eu fosse.
Fecho os meus olhos neste instante, sinto-te agora, apenas eu e tu, não sei em que parte de mim estás, mas ouço o mar à minha frente, sinto o teu gosto a sal na minha boca, a doce brisa do nosso amor acaricia-me a face e finalmente consigo ver-te como sempre sonhei que serias.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Chuva de Maio
terça-feira, 11 de novembro de 2008
O meu conto de fadas
Quando me pediste para dançar, só eu parecia estar ligeiramente alegre. Foi a única vez que me apertaste junto a ti da forma certa, como um homem a sério deve apertar uma frágil donzela (tu sempre achaste que eu devia ser uma segunda mãe). Confundiste-me - ou foi o álcool, já não sei nada. A partir daquele momento fiquei eternamente tua, apesar de todos os homens a sério que depois me quiseram, apesar de te teres continuado a encontrar com as mulheres fáceis daquelas festas ridículas, apesar de desde o início nunca ter duvidado que todos estes anos seriam um desperdício. A tua mãe sempre em nossa casa, a fingir-se de doente, a querer ser a tua única e verdadeira mãe, eu no psicanalista a tentar procurar na infância a resposta para as minhas depressões, tu numa qualquer bar a pedir duas ou três bebidas de uma só vez.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O amor
Já aprendi muito nos dias de dor e ressentimento e saudade e paranóia e mágoa, agora apenas eu ditarei as leis do amor. Tudo o que sou e tudo o que sempre fui estão no que aprendi até agora, por isso agora não quero que me leiam a palma da mão, não quero mais lições, não quero que me indiquem o caminho ou me falem da verdade, quero apenas ficar aqui no chão sem esperar que alguém se deite ao meu lado.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Prisão Perpétua
Tudo ficou sujo desde então, com uma podridão que me impregna os ossos e a carne e o espírito e a mente. Todos se tornaram feios e tristes - e eu fiquei a fazer parte de toda a porcaria que se esconde por baixo das unhas do mundo. Sou apenas mais um animal, pintado com a mesma cor monótona e submissa, desenhado como um grão de areia, num pequeno quadro, esquecido no canto mais frio dum quarto sem portas nem janelas. Fui apenas mais um. Sou apenas mais um.