domingo, 6 de novembro de 2011

Epifania

Se eu morresse hoje, saberia definir exactamente os melhores momentos da minha vida. Podemos não nos aperceber na altura ou nunca sequer chegar a entender, mas há coisas absolutamente perfeitas entre nós e não podemos desejar melhor, porque não há nada melhor. Um dia, mais tarde ou mais cedo, acabamos por entender que as coisas melhores da vida são as mais simples, vividas e partilhadas com as pessoas que amamos. São esses os momentos verdadeiros da nossa passagem por este mundo, aqueles em que nos esquecemos de tudo o que nos cega e quando os outros nos vêem como somos na realidade. É por causa dos minutos ou horas desses dias que passamos meses e anos e décadas, a sofrer, a lutar para não nos afogarmos, a penar para nos mantermos à superfície num mar que é feito de injustiça, dor, ódio e incompreensão.

Não foi em vão, por todos os momentos de felicidade durante todos aqueles anos e apesar de todo o sofrimento que hoje entra dentro de mim a cada pedaço de ar que inspiro, não me arrependo de te ter escolhido. Sei que cometi muitos erros e daria tudo para voltar atrás, emendar as palavras dolorosas e os actos egoístas, preencher as minhas faltas e recuperar os momentos perdidos. No entanto, não me vou recriminar e não vou voltar a ser vítima das circunstâncias ou das pessoas mal intencionadas. Tento não pensar nas razões e nos porquês, não quero viver de memórias nem depender do passado, mas mesmo depois de tudo o que aprendi, o vazio que deixaste dentro de mim continua grande demais, não está a ficar melhor com o tempo. Tenho subido e descido montanhas, dia após dia, lutado com forças que não julgava ter, noite após noite, a fazer de tudo para tirar da cabeça que estás com outro.

Não há ninguém no mundo que te conheça ou compreenda como eu, que saiba todos os segredos da tua alma, que conheça todos os teus defeitos e ame religiosamente cada um deles. Não sei como será o futuro, até porque não há nada que eu possa dizer ou fazer que te faça mudar de opinião, mas nunca tive tanta certeza do presente como agora: és a minha vida, a alegria dos meus sentidos e a paz da minha alma. Enquanto espero o meu regresso a casa, fecho os olhos com muita força para estarmos novamente perto, às vezes com tanta força que espero nunca mais acordar e assim permanecermos para sempre. Para já, os únicos momentos que importam na minha vida são os breves instantes em que estivemos outra vez os três juntos em casa há alguns dias atrás. Posso sempre ter mais cinco segundos para a semana, ou na semana seguinte. E durante esses cinco segundos vou ser novamente feliz porque não há sítio no mundo onde eu prefira estar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os homens não choram

“Chorar não adianta, aguenta como um homem, pára de sofrer, não vale a pena”, todas aquelas vozes na minha cabeça não significam nada, apontam-me defeitos que eu não entendo e que me recuso a aceitar, porque amar nunca é demais, não pode ser, nada faria sentido se o amor não fosse o mais importante do mundo, o verdadeiro amor, o amor que nos liberta e onde reside toda a paz, não o amor das palavras gastas todos os dias e que não significa nada, o amor dos maus livros e das telenovelas, egoísta e materialista, supérfluo, inconsequente e passageiro.

“Ele só te estava a atrasar, a tua família é que interessa, não viveste por causa dele, estás mais livre e rica agora”, dizem-te a rir e a bater palmas, como se tivessem ganho um jogo macabro, como se fosse a maior alegria do mundo ver-me caído, eu que sempre fui demasiado inocente para perceber que tinha tantos inimigos, eu que fiquei aflito e preocupado quando eram eles quem estavam caídos, tu a concordar com todos eles, a criares a imagem de uma pessoa que nunca fui eu, a odiares cada vez mais alguém que nunca conheceste.

Eles não sabem o que é o amor, apenas percebem a linguagem dos afectos duradouros, das empatias utilitaristas, dos momentos de euforia que dizem compensar as incompreensões do silêncio, das verdades absolutas que se podem tornar mentiras ao mais pequeno impulso ou desejo, eles nunca poderiam entender como sinto a tua falta e a inexistência de palavras para descrever a dor de estares longe, os segundos que parecem horas, as horas que parecem dias, os dias que parecem anos e este ano que foi a eternidade num inferno que nunca julguei possível.

No meio de toda esta maldade e vingança, mágoas e ressentimentos, mesmo agora que a minha luta desesperada está sob areias movediças e quanto mais tento caminhar, mais fundo vou ficando, não consigo odiar ninguém, porque quem um dia amou de verdade terá sempre o coração cheio, nada do que as pessoas possam dizer ou fazer pode um dia mudar isso, é um tesouro que vou guardar até ao fim, pois sei que depois de morrer vou voltar a ter a paz de estar nos teus braços, num céu feito para mim.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Fim

Chegou o fim. Finalmente cumpri a minha promessa e não vais voltar a sofrer. Também já me podes limpar todas as lágrimas, porque não vai haver mais razão para chorar. Nunca entendi a razão de tanto sofrimento, mas sei que a raiva é cega e dizem que a vingança é doce. Agora já nada disso importa, vamos para o lugar onde todos os sonhos se realizam.

A nossa casa é branca, tem postigos verdes a condizer com o telhado, da porta da cozinha cresce um cipreste que já quase chega à janela do quarto da bebé. É pequena, mas o jardim é grande: ali podes plantar as tuas flores de todas as cores, deste lado vou cultivar algumas hortaliças e lá ao fundo ainda não sei o que vamos criar, porque sei que tens medo de todos os animais, mesmo os mais pequeninos.

Na última madrugada decidimos partir. Começámos a fazer as malas, mas como não tínhamos nada para levar e estávamos fartos de pesos, fomos logo embora. Não faço a mínima ideia para onde estamos a ir, mas sei que é um sítio onde há sempre sol e a vida é simples, nunca mais vamos ter fome ou frio. Enganámos o destino e agora já podemos rir de todos aqueles que diziam que há coisas que o tempo não consegue apagar. Apesar de tudo o que eles querem fazer crer, não te foste embora e depois destes anos todos ainda seguras a minha mão, és minha e vais comigo por esta estrada perdida até à rua da paz. Também não acredites se te disserem que eu morri, basta fechares os olhos e pensares na nossa casa pequenina com postigos verdes – eu vou estar lá à tua espera, como sempre estive.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O cavalo selvagem dentro de mim

Há dentro de mim um cavalo selvagem que não consigo domar, cavalga livre pelos prados e vales da minha vitalidade escondida e vai beber água à coragem inquebrável que circula nas minhas veias quando estás por perto. Nunca o tentei domar porque sei que os cavalos selvagens não foram feitos para rédeas e truques de equitação. Se o fizesse, de certeza que ele morreria e tudo o que vale a pena desapareceria.

Há dentro de mim um cavalo selvagem que sonha o que não me atrevo. Mas escondo toda esta agitação da amargura do mundo porque sei que me chamariam de louco. Durante a noite, quando toda a gente está a dormir, falamos baixinho sobre as viagens à volta do mundo que iremos dar, conversamos sobre os livros que um dia publicaremos e planeamos a revolução que irá mudar o mundo de uma vez por todas.

A maior parte das pessoas não acredita que um cavalo selvagem possa cavalgar dentro de um ser humano. E é natural que pensem assim porque raramente ele se deixa observar e só por uma vez permitiu que alguém se aproximasse: foi quando tu apareceste e de imediato o cativaste, como se fossem apenas um, carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue. E então aconteceu um milagre: montaste-o e ele levou-te a passear por sítios dentro de mim que nem eu julgava existirem.

Quando te foste embora, o cavalo selvagem dentro de mim desapareceu. Nunca mais o vi e daqui a uns anos vou pensar que era apenas um mito, que nunca existiu. Sei que ele ainda vive e que está escondido à espera que tu voltes. Mas se demorares muito pode morrer de sede e fome, porque o rio de coragem secou e os vales são agora desertos onde nada cresce.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Encruzilhada

Ela tem 23 anos, acabou o curso há pouco tempo e casou ainda há menos. Ainda não sabe o que quer da vida, nem o que a vida espera de si. Já experimentou fazer várias coisas, desde escritora a modelo, mas nenhuma delas era o que estava certo. Por isso vai passando o tempo em empregos menores e odeia cada segundo. O casamento não anda bem e para piorar toda a gente lhe diz que ainda devia estar em lua-de-mel, que é muito pouco tempo, que a vida irá mostrar-lhe dificuldades cada vez maiores. Mas ela tem medo que de passar o resto da vida como nos últimos tempos. O cansaço está a ser difícil e neste momento só pergunta se aguentará até ao fim do ano.

Ele tem 51 anos e tem todos os sintomas da habitual crise de identidade que contamina os homens nesta idade. Tem uma vida estável, é a pedra basilar duma família feliz, mas sente-se profundamente deprimido. Há algo que falta, quer algo de novo, reinventar a vida, voltar a sentir-se jovem. Está casado há vinte e cinco anos e este tem sido o ano mais difícil. O início foi divertido, riam-se muito e ficavam a conversar sobre tudo até às tantas da madrugada. Um dia deixou de ser divertido e o que ficou foi somente uma asfixiante rotina. Profissionalmente muito bem sucedido, no topo da carreira, sente agora que tudo estagnou e nem o trabalho o alegra mais.

Quando ela chegou ao bar, ele já estava sentado a beber o segundo copo de whisky. O que aconteceu de seguida foi forte e rápido, como se um raio tivesse vindo do céu e os atingisse aos dois em simultâneo. Olharam um para o outro, recuaram ao tempo em que eram crianças de escola e descobriam o amor pela primeira vez, os corações bateram incessantemente. Algo mudou em décimas de segundo. Mas ela abriu bem os olhos, cruzou as mãos, fixou-se na aliança e recomeçou a pensar em como a sua vida era um beco sem saída. Ele respirou fundo, bebeu um gole do copo e reflectiu que deveria ir ao cardiologista por causa daqueles malditos ataques de taquicardia.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Paragem no Tempo

Não sei o que fazer para que me voltes a amar. Fecho os olhos e depois deste tempo todo recomeço a rezar, mas nem isso resulta: se eu tivesse apenas um desejo, queria que te importasses mais uma vez e olhasses para mim. Não sei o que fazer para que me voltes a querer, gostava de saber a palavra perfeita e poder dizê-la no momento certo para que pudesses voltar a acreditar em mim. Sei que não mereço, mas daria tudo para que tudo voltasse ao que era dantes, quando eras a única pessoa que realmente acreditava em mim. Não me atrevo a pedir desculpa pela dor que te causei, é uma culpa com que vou ter de viver todos os dias, porque depois de tudo o que aprendi, ainda te consegui magoar tantas vezes. Só queria poder tirar de dentro de ti tudo o que fiz de mal e voltar a pôr o que sentiste por mim.

Gostava de olhar para trás e poder apanhar os momentos que deixei escapar, os sorrisos que me ofereceste quando eu estava ocupado a olhar para outro lado, as vezes que me deste a tua mão e eu fui demasiado orgulhoso para lhe tocar, ao beijos que eu não soube saborear, os tempos perdidos com tolices sem nome. Quando agora olho para trás só sei recordar o tempo em que eu era tudo o que querias e conseguia tocar no teu coração.

Não consigo descrever nem explicar, mas houve sempre algo em ti que me tirou o fôlego. Só agora reparo que nunca te elogiei como devia, nunca te falei da forma como iluminavas cada segundo do meu dia. Com o teu sorriso, confiei-te todos os segredos da minha vida e foste a única pessoa que me conheceu; com a tua honestidade, tiraste todos os medos da minha alma e fizeste-me voltar a confiar no mundo.

Alguns dirão que a vida continua, mas não é verdade. Não consigo, nem quero, compreender a vida assim, porque sempre pensei que ia envelhecer ao teu lado e lembrar-te todos os dias do amor que sempre vou sentir. Gostava que o mundo parasse, não houvessem mais risos, a música acabasse, o mel não fosse mais doce e o céu nunca mais tivesse estrelas. Quero partir todos os relógios e impedir o tempo de continuar este sofrimento sem sentido.

domingo, 20 de março de 2011

No segundo seguinte

Se é mesmo verdade que existe o Amor, ele começa muito antes de qualquer cerimónia. Pode acontecer na escola a meio de uma aula, num jantar de amigos, numa troca de olhares no autocarro, nos primeiros raios de sol da manhã que entram num quarto e iluminam alguém para sempre, um amante a olhar para o outro e vendo ele próprio pela primeira vez. Mas o Amor é implacável, corta-nos ao meio entre o antes e o depois, num minuto estamos dispostos a dar tudo sem reservas nem condições, no outro acontece a despedida sem que nada o faça prever.

- Eu fico bem – menti

Nunca soube mentir, mas ultimamente esta mentira parecia convincente. Dizem que se repetirmos muitas vezes uma mentira, ela torna-se verdade.

- Faz uma boa viagem – disse eu, resignado.

- Ver-te-ei em breve – mentiu ela. – Podes regressar a casa quando desejares, eu voltarei assim que precisares de mim.

- Não te preocupes comigo – pedi eu, a chorar por dentro.

Abraçou-me firmemente durante um instante e no segundo seguinte partiu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Crepúsculo

Escrevo para te dizer que tenho tido muitas saudades tuas. Estes dias têm sido muito difíceis, há alturas em que tenho de fazer um esforço para fazer as coisas mais simples, como respirar. Em princípio, viver é fácil: basta expirar e inspirar e deixar que o resto aconteça naturalmente. Mas começa a ser impossível quando a razão de existir se vai desvanecendo. Sinto muito a tua falta e não sei o que hei-de fazer, pressinto que a cada dia que passa ficas mais longe de mim e menor é a probabilidade de voltares. E não quero pensar que não vais voltar porque não consigo imaginar o resto da minha vida sem ti. Tento dizer a mim próprio que te foste embora, mas o meu corpo é o primeiro a não querer acreditar e a ter vontade de estar perto de ti, sentir o teu toque, ouvir a tua voz, saber que não estás longe.

Olho para o nosso passado e noto que não havia forma de me aperceber que melhor era impossível. Lembro-me que quando ia ter contigo ficava a imaginar como me irias aparecer e quando nos encontrávamos estavas sempre deslumbrante, muito melhor do que me tinha passado pela cabeça. O que eu gostava mais em ti nessa altura era o olhar de esperança cada vez que me vias, tão diferente do olhar de desilusão de agora. Nunca deixei de sentir a emoção de estar contigo, mas compreendo que haja feridas que nunca mais cicatrizem, coisas que nem o tempo pode apagar. Reconheço que estiveste sozinha quase sempre, mesmo quando eu estava perto, por isso é natural que não sintas a minha falta. Gostava apenas de saber o momento exacto em que deixaste de sentir um calafrio durante o meu abraço, para poder ir lá e abraçar-te com o dobro do amor, dizer-te aquilo que sempre esteve dentro de mim, mas que nunca te soube explicar.

As luzes estão a apagar-se. É tarde demais para te dizer que farei tudo o que quiseres e que concordarei com tudo o que disseres. Sempre que conversamos falas de um passado diferente do meu: para ti foram momentos de confusão e tristeza, para mim foram os dias mais felizes da minha vida. Mas sei que tudo tem um fim, a única certeza da vida é que nascemos e morremos. Aí vem a escuridão.

sábado, 5 de março de 2011

Cidade sem nome

Caminho mil quilómetros pelas ruas da minha cidade, passeios frios de betão, pedra e cimento, casas envelhecidas, luzes monocromáticas, gente a passar de um lado para o outro, com pressa de chegar um sítio que não entendo, os carros a cavalgar, os condutores a buzinar, a gritar palavrões uns aos outros, remoídos por uma raiva cega que me choca,

- Sai da frente, pá, és mesmo uma besta.

As grandes cidades são selvas áridas cheias de predadores, pessoas agressivas de cara fechada que lutam pela sobrevivência, hoje a caçar, amanhã a serem caçadas, a defenderem o território em lutas tribais, sem misericórdia, sem tempo para um sorriso sincero ou um verdadeiro acto de generosidade gratuita, sem pena ou remorsos por não parecerem seres humanos,

- Sai daí da minha frente antes que te parta o focinho.

Caminho mil quilómetros e passo por vagabundos e pobres que servem para as pessoas ditas normais se lembrarem do preço do fracasso, o preço de se parar de caminhar e olhar para as árvores do jardim de pedra, por isso continuo e finjo que não olho, continuo sem saber onde os passos me levam, me carregam por ruas sem refúgio, esquinas que vão dar ao mesmo sítio, prédios com vertigens, igrejas frígidas e secas, lado a lado com prostitutas secas e frígidas, ambas quase sempre disponíveis, mas ambas a funcionar apenas quando se mete a moeda da ranhura,

- Queres alguma coisa, querido?

Quando a noite cai, a cidade despe-se e alguém acende a lua, a paz do silêncio inunda as ruas, mas mesmo assim ainda ouço as vozes das pessoas que por ali passaram durante o dia, talvez seja um sinal de que a minha mente se está a render, a verdade é que me sinto a desvanecer e espero que a cidade receba a minha alma nos seus braços.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O primeiro dia do resto da minha vida

Lembro-me como se fosse hoje o primeiro dia do resto da minha vida. Foi o primeiro dia em que me senti realmente vivo, quebrei as correntes de sofrimento a que estava preso há tanto tempo e, pela primeira e única vez, dei a mim próprio a possibilidade de ser feliz.

Éramos os dois tão novos, tão inocentes, a precisar de crescer em tantos lados, mas tão felizes, a olhar para o mundo de olhos bem abertos. Principalmente a olhar com amor um para o outro, sem nos apercebermos de todo o ódio e preconceito que sempre existiu à nossa volta. Sem sabermos que o rancor e a raiva dos outros haveriam de um dia prevalecer em nós.

Sei que não sou perfeito. Cada dia fui conhecendo mais as minhas imperfeições e, por mais que tentasse, nunca as poderia esconder de ti. Houve uma altura em que pensei que tudo seria tão simples como compreenderes e me aceitares tal como sou. Mas com o tempo descobri que te magoei vezes demais, sem teres culpa. Gostava de poder apagar toda a dor que causei e limpar as tuas lágrimas, mas só quero que saibas que hoje ainda continuo a tentar aprender.

Mas não me arrependo, nem por um segundo: contigo descobri uma razão para viver e lutar mais um bocado para ser feliz, para todas as noites sem dormir em que tentei descobrir um sentido para a vida. Sempre soube que não poderias ser tu a percorrer o caminho por mim e fazer as escolhas acertadas, mas contigo pelo menos havia uma razão para percorrer o caminho. E foste tu a razão para eu querer ser uma pessoa melhor e, sobretudo, para começar de novo naquele primeiro dia do resto da minha vida.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal

O Natal da minha infância é um lugar colorido, cheio de luzes a acender e a apagar, ainda não estava quase ninguém morto e ouvia-se sempre alguém a rir nos quatro cantos da casa velha. Ainda ouço o vento a bater nas árvores mais próximas das janelas, sinto o cheiro forte da terra depois da chuva e o calor da grande lareira da sala que nos juntava a todos. O presépio com imagens do tempo de Cristo, que eu até hoje posso jurar que tinham vida própria e se mexiam, os pastores e os reis magos a subirem o monte feito com musgo verdadeiro e terra e água, no centro a Sagrada Família, para onde tudo convergia naquela noite de vinte e quatro.

Aqueles dias foram fundamentais para o resto da vida, o que eu sou neste momento e o que gostaria de ser, os meus valores, aquilo que é realmente importante para mim. Hoje é dia de Natal porque o calendário manda. As imagens do presépio sobreviveram mas parecem mortas. A lareira extinguiu-se há muito, os adultos já não são crianças e não há árvores, nem terra, nem musgo. Nem sequer calor ou frio.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Inverno da Alma

Ninguém imagina a dor que é viver em mim. Escrever não é um prazer, mas também não é uma obrigação. É antes o último sonho de um condenado a viver os últimos dias no corredor da morte. É caminhar sozinho num nevoeiro habitado por todas as criaturas que atormentaram a minha infância, caminhar devagar com medo que um buraco me sugue e me leve para um outro nevoeiro sem portas nem janelas, nem verdades por revelar.

Faz frio e chove lá fora, mas eu não estou cá dentro, onde está seco e não deve fazer tanto frio. Estou lá fora, à chuva, ofegante mas livre, gelado mas à procura. Ninguém me vê porque é de madrugada e não há quem se queira molhar num frio destes, provavelmente já está toda a gente a dormir.

Talvez um dia consiga começar e terminar um livro, talvez quando o desespero me deixar em paz, ou então o sofrimento, o caos, a insegurança e todos os fantasmas do passado e do futuro. O remorso de não ser nada transforma a escrita na última esperança de ser tudo. Mas olho em redor e vejo que toda a gente tenta fazer o mesmo, todos têm algo a dizer, mesmo que seja a maior alarvidade embrulhada numa gigantesca falta de técnica e talento. E em conjunto são um badalo que emitem um ruído que ressoa dentro da minha cabeça e me faz estremecer de dor. É nestas alturas que paro e me sento congelado a olhar para o infinito. Estão todos demasiado ocupados a escrever para saberem ler.

As luzes das decorações de Natal não me aquecem e continua a chover. Já nem me preocupo com as poças de água, nada me faz desviar deste caminho tão claro e certo, mas há uma torneira mal fechada na cozinha que não pára de pingar. Não tenho um milímetro de roupa seco e tremo de frio, apesar de estar cá dentro, a olhar lá para fora. A desejar que, ao menos por esta noite, algo faça sentido.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Uma gota de chuva

Ela era Graça, em nome e essência. Para os que amava, espalhava força, vida, riso e luz. E para mim espelhava também mágoa. Desde o primeiro dia que a vi, nada nem ninguém que me aconteceu foi tão assustador e confuso, porque não há ninguém que me tenha dado tanta segurança, mas fragilidade, ninguém que me tenha feito sentir tão importante, mas insignificante.

Conheci-a num jantar de amigos, na serenidade e calor da sua casa. Desde o primeiro instante, não consegui deixar de me levar pela luz que ela naturalmente irradiava. Para mim, foi o farol que me guiou e protegeu nos piores momentos de fraqueza e desorientação. Essa noite foi o primeiro dia do resto da minha vida. Foi aí que parei de me procurar, porque o mundo em que eu acreditava sem saber porquê começou a fazer sentido e até os problemas mais inquietantes se dissolveram numa harmonia que eu não julgava possível existir. Mas foi também numa noite como essa que renasci para depois morrer.

As circunstâncias da vida foram mais fortes do que as nossas vontades juntas. Alguns diriam que o que aconteceu foi uma desgraça ou um desperdício. Eu prefiro contar uma história de amor que não se concretizou, de uma gota de chuva que não caiu em cima de nenhuma flor mas de uma pedra seca, que para sempre ficou agradecida.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Dia da Libertação

De um momento para o outro, a realidade deu-lhe aquilo que tanto esperou e suplicou, nos dias entediantes e nas noites angustiantes. Mas aquilo que mais queria pareceu-lhe subitamente vazio. Vazio de sentido. O espaço aberto e infinito da liberdade tinha trocado de lugar: a prisão, aflitiva e desesperante, tornou-se, numa parte qualquer do caminho, a vida cá fora. Lá dentro, na segurança torturadora da rotina, tinha criado um mundo próprio. Cá fora não tinha nada e era menos que nada. Aperceber-se de tudo isto em breves segundos foi um impacto violento que não contava.

Para não ficar prostrado no chão em terror, fez aquilo que sempre fez desde o primeiro dia na prisão: caminhou em frente, passo após passo, como se de cada movimento dependesse a sua sobrevivência. Quanto mais se afastava da fortaleza de betão, mais falta sentia da previsibilidade da violência das alas, do constante sadismo autoritário dos guardas, do repetido som agudo das grades de metal a fecharem-se e da interminável rotina do trabalho manual das oficinas. Os cem metros que fez, desde o estabelecimento prisional até à paragem de autocarro, pareceram-lhe quilómetros. Na verdade, cada passo teve, naquele momento, a importância de mil passos do primeiro homem na lua e apesar de não ter um grande valor para a humanidade, foram enormes espaços de calçada conquistados por um homem só.

Mas sentia-se tal e qual um astronauta numa lua longínqua, a uma distância infinita da terra. Estava parado a tentar recuperar o fôlego quando o autocarro parou abruptamente mesmo à sua frente, abriu a porta e esperou ansiosamente a sua entrada, como a ordem coerciva de um guarda impaciente.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Vem comigo

Vem comigo, anda comprar dois bilhetes só de ida para o comboio sem destino, onde a amizade e o amor são verdadeiros, a juventude é eterna, não há doenças, está sempre bom tempo e nunca temos frio ou fome. Ouvi dizer que lá as conversas terminam sempre com um sorriso sincero e não existe o ódio ou o sofrimento. Vem viver o final das histórias dos livros onde tudo acaba bem, como as memórias daquele passado que nunca vivemos.

Vem comigo e deixa de estar na escuridão, ou deixa-me estar contigo na tua escuridão, vem como és, como sempre foste, como eu sempre esperei que fosses, desta vez sem promessas e juras eternas, sem mentiras e canções em playback. Vem andar de bicicleta, mesmo que não saibas e tenhas medo de cair, vem nadar comigo, mesmo que tenhas medo de te afogar, coloca a tua vida nas minhas mãos e confia que não vou deixar que nenhum mal te aconteça.

Vem comigo, ou então deixa-me estar na solidão, longe da tua ambição claustrofóbica, dos fantasmas que te perseguem, das vozes esquizofrénicas que me obrigaste a ouvir durante todos estes anos. A verdade é que tenho medo de ficar sozinho, mas mais medo ainda que venhas comigo. Nunca me protegeste de nada, nem mesmo de mim mesmo. Para onde eu quero ir não há portas, nem janelas, mas também não há paredes. Talvez encontre o que procure, ou talvez fique apenas sentado à espera que venhas comigo.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Minha pequenina,

Escrevo-te para que saibas quem é o teu pai, para que entendas que mudaste a minha vida quando nasceste. Talvez ao longo do tempo tenhas paciência para ler isto mais do que uma vez e é bem possível que em alturas diferentes entendas de forma variada o que quero dizer. Mas isso é uma das maiores belezas da vida: ter muitas cores, não ser sempre igual. Quando fazes um desenho fica sempre mais bonito quando pintas o céu de verde, amarelo e azul, ou o sol de cor-de-rosa e vermelho. Nunca acredites em quem te disser que a vida é a preto e branco, até porque as coisas não têm de ser necessariamente como as vemos com os olhos e se as sentires com o teu coração vais descobrir um mundo maravilhoso nos objectos, acontecimentos e pessoas mais imprevisíveis.

Quando soube que existias, chorei. Chorei como nunca na vida, com lágrimas dum amor que não conhecia. Não sabia se estava pronto para ser o homem que deveria ser, mas acho que todas as pessoas sentem o mesmo, seja por um segundo ou pelo resto da vida. Nunca ninguém tinha estado tão dependente de mim e sentir isso é uma experiência assustadora que só quem é pai pode saber. Esperei ansiosamente pela tua chegada e desde a barriga da mãe até ao meu colo, resguardei-te diariamente com todo o carinho.

Fui eu que te dei as boas vindas a este mundo, de braços abertos à tua espera, enquanto tu chegavas assustada, indefesa, confusa, sem saberes o que esperar da incrível aventura que tinha acabado de começar. Abracei-te pela primeira vez e senti que afinal valeu tudo a pena. Estendi-te a mão e tu pegaste nela como se fosse a coisa mais importante do mundo, mostrei-te as cores mais bonitas, indiquei-te os caminhos mais fáceis, ensinei-te os segredos mais escondidos. Quando caíste, levantei-te; quando choraste, consolei-te; quando tiveste medo, abriguei-te. Estive sempre contigo nos primeiros anos, protegi-te, amparei-te, criei-te, fiz-te feliz. Nunca tive tanta vaidade como quando andava contigo na rua de mãos dadas. Nem nunca compreendi porque tinhas tanto orgulho em mim, porque te sustinhas a cada palavra minha, apesar de eu quase nunca dizer nada de importante. Mas foram estes pequenos mistérios que fizeram a minha travessia neste mundo valer a pena.

Tens de perceber que a vida das pessoas grandes é como aqueles carrosséis enormes que tu sempre tiveste medo de andar nas feiras, porque sobem muito e descem muito e andam demasiado depressa. Sempre preferiste andar naqueles carrosséis pequeninos que têm muitos balões e andam devagarinho, com música calma. Mas a vida dos crescidos nem sempre pode ser assim e normalmente há demasiadas subidas e descidas. E o pior desses carrosséis enormes é que às vezes parece que nunca mais acabam de descer, queremos sair e não conseguimos. Mas sabes qual é o segredo? Esperar, porque mais tarde ou mais cedo há outra subida e depois outra descida e por aí adiante. Se estivermos demasiado preocupados e com medo acabamos por não gozar a viagem.

Sabes, nunca conheci o meu pai: quando eu nasci já o avô tinha ido para o céu. Umas das minhas maiores tristezas foi saber que ele nunca olhou para mim, eu nunca adormeci no colo dele, nunca dormimos agarrados um ao outro. Isso é algo que sempre teremos, tu e eu, nada poderá fazer desaparecer esses momentos. Não há razão para alguma vez te sentires perdida, porque sempre que estiveres aflita basta fechares os olhos que eu vou estar, como sempre estive, abraçado a ti a proteger-te.

quarta-feira, 24 de março de 2010

De olhos bem abertos

Encontrei uma fotografia tua. Aqueles foram os dias mais felizes da minha vida. Nós os dois a descer a rua de bicicleta, a jogar à bola ou ao pião. Parece que foi ontem. Tinhamos os papéis principais numa história fantástica que viviamos todos os dias, em busca de tesouros enterrados, a lutar contra monstros e dragões, a salvar a honra de mil princesas. De olhos bem abertos a olhar o mundo, os dias eram um doce néctar que bebíamos directamente da fonte da vida.

Eramos verdadeiramente livres. Corríamos descalços pela praia fora, a tentar chegar ao infinito, a descobrir os mistérios de um mundo que se abria maravilhosamente à nossa frente. Sem portas nem paredes, sem preocupações nem responsabilidades, o final de cada dia era o epílogo de um conto que acabava sempre bem.

Foste o melhor amigo que alguém pode ter. Nunca mais tive outro igual. Recebeste socos e pontapés em vez de mim, conseguias sempre chegar primeiro em lutas de rua e jogos violentos. É impossível lembrar-me de todas as vezes que me defendeste, sem nunca pedires nada em troca ou sequer falares sobre o assunto.

Pensei que as tinha rasgado todas, mas hoje encontrei uma fotografia tua. Coisas que não pudemos controlar meteram-se no caminho. Nunca mais tive um amigo assim. Se tivéssemos mais um dia, gostava de te poder agradecer tudo o que fizeste por mim. Na verdade, nunca me despedi de ti.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sonhos de mulher

Conhecer alguém é difícil nos dias de hoje, quanto mais encontrar a pessoa com quem queremos passar o resto da vida. Não que faltem as opções, porque com a internet e a globalização nunca houve tanta escolha na história da humanidade, mas ao mesmo tempo parece que é mais complicado arranjar alguém decente, que sirva para apresentar aos pais, ter almoços de Domingo, convidar para ir aos aniversários dos sobrinhos, ir de férias para partilhar momentos verdadeiros e não apenas uma cama para sexo. Não me consigo imaginar a ter filhos com nenhum dos homens com quem saí nos últimos anos. E mesmo que na altura tivesse imaginado isso, vejo agora que eram momentos de pura ilusão, erros que felizmente não cometi. É assim que começamos a duvidar da existência do amor. A paixão, essa sei bem demais que é real. Mas o amor... onde foram parar os contos de fadas, os princípes e as princesas, os finais felizes. Ainda hoje espero que um cavaleiro salvador apareça e finalmente me liberte da realidade das eternas semanas de trabalho e solidão.

Aos vinte anos, queremos começar a vida junto do homem que sempre sonhámos, ele alto, bonito, carinhoso, fã de comédias e amigo dos animais, com um emprego importante e viciado em exercício, nós a trabalhar num escritório de dia e a divertir-nos de noite.

Aos quarenta, os requisitos físicos deixam de ser importantes e basta alguém que goste da nossa companhia, que ganhe mais dinheiro do que nós, seja de boas famílias, que adore os filhos que tivemos com outro, mas que ainda queira ter filhos e seja suficientemente saudável para brincar com eles.

O tempo passa e o amor, tal como o idealizámos um dia, deixa de existir. Passa tudo a ser mais prático, mais frio. Hoje quero apenas contar com alguém, ou pelo menos ter ao meu lado uma pessoa que não me desiluda naquilo que é mais importante. Não preciso contar todos os meus segredos, mas quero ter alguém a quem me queixar quando precisar desabafar, que me ouça com o mínimo de paciência quando eu tiver um ataque de nervos irracional.

A única coisa de que tenho medo é morrer sozinha. Quando envelhecemos deixamos os receios e ansiedades de lado, mas este em particular fica e aumenta de ano para ano. Porque podemos chegar a velhas sem encontrar ninguém, ou ele pode muito bem fazer a desfeita de morrer primeiro. Quanto aos meus filhos, se um dia os tiver, vão fazer o mesmo que eu e pôr os pais num asilo logo que tiverem oportunidade. Não os posso censurar por isso. Na verdade, toda a gente morre sozinha. Talvez num qualquer quarto de Hospital rodeada por gente estranha, médicos apressados e enfermeiras mal-educadas. Talvez numa rua, com pessoas a correr de um lado para o outro a chamar por uma ambulância. Ou até talvez na nossa própria cama, com a família toda espalhada pela casa, à espera que o inevitável aconteça para que as suas vidas voltem depressa ao normal.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Eu não espio

Hoje segui-te outra vez durante todo o dia. Vi-te a sair de casa e a fazeres desaparecer toda à gente à tua volta. A cada passo teu as pessoas comuns extinguem-se como poeira e nada mais importa. Talvez não o saibas, mas a tua pele branca brilha ao sol quando estás na paragem à espera do autocarro. Ficas apertada no meio daquela gente toda e as tuas pernas reluzem no meio do cinzento dos vestidos coloridos das outras mulheres. Fico sempre revoltado por te ver assim, imaculada e perfeita, no meio daquela corja de abutres.

Hoje apanhaste o cinquenta e quatro, porque o vinte e dois nunca mais aparecia e não podias chegar outra vez atrasada. Tiveste que andar dois quarteirões na graciosidade do teu passo apressado, mas mesmo assim paraste trinta e dois segundos quando a rapariga enervantes dos inquéritos de rua te pediu para responderes a algumas perguntas - sim, porque tu és assim, caridosa e preocupada com toda a gente, mesmo que isso te prejudique. Vi-te entrar no edifício onde trabalhas, a ires para casa sozinha à noite, a andares mais apressada nas ruas com pouca gente. Reconheço bem os teus passos amedrontados e fico com receio que aches que sou um tarado pervertido, por isso tenho sempre muito cuidado. Sei que poderias pensar que eu te espio, por isso preferi nunca te dizer que te vejo ao longe.

Talvez não entendesses que não me sentia assim há tanto tempo - a minha vida estava tão fria e monótona, quando de repente apareceste tu e fizeste uma revolução cá dentro, entraste sem pedir licença na melancolia da minha alma, tranformaste a minha vida com o poder de um deus que realmente se preocupa com os seus filhos e fizeste-me pensar que a vida afinal tem sentido. Há algo cá dentro que é maravilhoso quando estou assim, parece que fico num estado de graça permanente, por isso abençoada sejas por me fazeres sentir isto tudo: foi preciso um milagre para eu poder sorrir outra vez e tu operaste esse milagre através do teu sorriso. Fizeste de mim aquilo que sou hoje e eu sou teu para sempre, agora pertencemo-nos um ao outro. E um dia destes arranjarei forma de sermos um.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Amor na Aldeia

A primeira vez que o Agostinho viu a Susana foi numa romaria da aldeia em honra da Nossa Senhora dos Aflitos. Ele tinha vinte e quatro anos, ela dezasseis. O Agostinho estava em sentido, como qualquer homem temente a Deus deve estar à passagem da procissão, mas todos os anos era a mesma coisa e por isso estava a fazer um esforço para não adormecer: os andores com os santos, a banda de música, os bombeiros de capacetes e machados, os senhores da confraria, a guarda a cavalo, os meninos vestidos de anjinhos.

A Susana veio vestida de Nossa Senhora, surgindo como uma aparição no meio do cortejo: a pele branca e luminosa, os olhos negros e tristes, o corpo a deslizar pela calçada. O Agostinho ficou extasiado e à volta dele o tempo parou enquanto ela passava, mas mais tarde pensou que seria uma experiência mística e lembrou-se sempre daquele momento como uma graça divina.

Só algum tempo mais tarde é que reconheceu a Susana como uma criatura terrena, numa desfollhada em casa do Ti Manel. Ela estava sentada a arrancar as folhas às espigas, retirando delicadamente cada uma, como se estivesse a fazer um ritual complicado. Foi neste dia que o Agostinho jurou que a Susana haveria de ser sua. O que ele não contava é que o António também reparasse nela. Muito mais desembaraçado e prático que o Agostinho, convidou-a para sair nesse mesmo dia, passadas duas semanas foi a casa dela pedir permissão ao pai para poderem ir juntos ao magusto da aldeia e passados dois meses já eram namorados oficiais.

O Agostinho deixou de comer, andou doente semanas a fio e preocupou a família toda, mas nada disso fez a sua Susana reparar nele. Na verdade, ela nem sabia que ele existia e que alguém lhe tinha um amor tão intenso. O António era demasiado distante e foi com frieza que pediu a sua mão em casamento na altura certa. Casaram em pleno Agosto, no dia de maior calor daquele ano. Foi nessa hora que o Agostinho desistiu e finalmente se levantou da cama, mas nunca mais a esqueceu. Ainda hoje, passados quarenta anos, a observa de longe, mimando os netos e passeando ao fim da tarde com o marido. Um dia ainda há-de ser sua.