segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Fim

Chegou o fim. Finalmente cumpri a minha promessa e não vais voltar a sofrer. Também já me podes limpar todas as lágrimas, porque não vai haver mais razão para chorar. Nunca entendi a razão de tanto sofrimento, mas sei que a raiva é cega e dizem que a vingança é doce. Agora já nada disso importa, vamos para o lugar onde todos os sonhos se realizam.

A nossa casa é branca, tem postigos verdes a condizer com o telhado, da porta da cozinha cresce um cipreste que já quase chega à janela do quarto da bebé. É pequena, mas o jardim é grande: ali podes plantar as tuas flores de todas as cores, deste lado vou cultivar algumas hortaliças e lá ao fundo ainda não sei o que vamos criar, porque sei que tens medo de todos os animais, mesmo os mais pequeninos.

Na última madrugada decidimos partir. Começámos a fazer as malas, mas como não tínhamos nada para levar e estávamos fartos de pesos, fomos logo embora. Não faço a mínima ideia para onde estamos a ir, mas sei que é um sítio onde há sempre sol e a vida é simples, nunca mais vamos ter fome ou frio. Enganámos o destino e agora já podemos rir de todos aqueles que diziam que há coisas que o tempo não consegue apagar. Apesar de tudo o que eles querem fazer crer, não te foste embora e depois destes anos todos ainda seguras a minha mão, és minha e vais comigo por esta estrada perdida até à rua da paz. Também não acredites se te disserem que eu morri, basta fechares os olhos e pensares na nossa casa pequenina com postigos verdes – eu vou estar lá à tua espera, como sempre estive.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O cavalo selvagem dentro de mim

Há dentro de mim um cavalo selvagem que não consigo domar, cavalga livre pelos prados e vales da minha vitalidade escondida e vai beber água à coragem inquebrável que circula nas minhas veias quando estás por perto. Nunca o tentei domar porque sei que os cavalos selvagens não foram feitos para rédeas e truques de equitação. Se o fizesse, de certeza que ele morreria e tudo o que vale a pena desapareceria.

Há dentro de mim um cavalo selvagem que sonha o que não me atrevo. Mas escondo toda esta agitação da amargura do mundo porque sei que me chamariam de louco. Durante a noite, quando toda a gente está a dormir, falamos baixinho sobre as viagens à volta do mundo que iremos dar, conversamos sobre os livros que um dia publicaremos e planeamos a revolução que irá mudar o mundo de uma vez por todas.

A maior parte das pessoas não acredita que um cavalo selvagem possa cavalgar dentro de um ser humano. E é natural que pensem assim porque raramente ele se deixa observar e só por uma vez permitiu que alguém se aproximasse: foi quando tu apareceste e de imediato o cativaste, como se fossem apenas um, carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue. E então aconteceu um milagre: montaste-o e ele levou-te a passear por sítios dentro de mim que nem eu julgava existirem.

Quando te foste embora, o cavalo selvagem dentro de mim desapareceu. Nunca mais o vi e daqui a uns anos vou pensar que era apenas um mito, que nunca existiu. Sei que ele ainda vive e que está escondido à espera que tu voltes. Mas se demorares muito pode morrer de sede e fome, porque o rio de coragem secou e os vales são agora desertos onde nada cresce.