quarta-feira, 20 de julho de 2011

Encruzilhada

Ela tem 23 anos, acabou o curso há pouco tempo e casou ainda há menos. Ainda não sabe o que quer da vida, nem o que a vida espera de si. Já experimentou fazer várias coisas, desde escritora a modelo, mas nenhuma delas era o que estava certo. Por isso vai passando o tempo em empregos menores e odeia cada segundo. O casamento não anda bem e para piorar toda a gente lhe diz que ainda devia estar em lua-de-mel, que é muito pouco tempo, que a vida irá mostrar-lhe dificuldades cada vez maiores. Mas ela tem medo que de passar o resto da vida como nos últimos tempos. O cansaço está a ser difícil e neste momento só pergunta se aguentará até ao fim do ano.

Ele tem 51 anos e tem todos os sintomas da habitual crise de identidade que contamina os homens nesta idade. Tem uma vida estável, é a pedra basilar duma família feliz, mas sente-se profundamente deprimido. Há algo que falta, quer algo de novo, reinventar a vida, voltar a sentir-se jovem. Está casado há vinte e cinco anos e este tem sido o ano mais difícil. O início foi divertido, riam-se muito e ficavam a conversar sobre tudo até às tantas da madrugada. Um dia deixou de ser divertido e o que ficou foi somente uma asfixiante rotina. Profissionalmente muito bem sucedido, no topo da carreira, sente agora que tudo estagnou e nem o trabalho o alegra mais.

Quando ela chegou ao bar, ele já estava sentado a beber o segundo copo de whisky. O que aconteceu de seguida foi forte e rápido, como se um raio tivesse vindo do céu e os atingisse aos dois em simultâneo. Olharam um para o outro, recuaram ao tempo em que eram crianças de escola e descobriam o amor pela primeira vez, os corações bateram incessantemente. Algo mudou em décimas de segundo. Mas ela abriu bem os olhos, cruzou as mãos, fixou-se na aliança e recomeçou a pensar em como a sua vida era um beco sem saída. Ele respirou fundo, bebeu um gole do copo e reflectiu que deveria ir ao cardiologista por causa daqueles malditos ataques de taquicardia.