domingo, 20 de março de 2011

No segundo seguinte

Se é mesmo verdade que existe o Amor, ele começa muito antes de qualquer cerimónia. Pode acontecer na escola a meio de uma aula, num jantar de amigos, numa troca de olhares no autocarro, nos primeiros raios de sol da manhã que entram num quarto e iluminam alguém para sempre, um amante a olhar para o outro e vendo ele próprio pela primeira vez. Mas o Amor é implacável, corta-nos ao meio entre o antes e o depois, num minuto estamos dispostos a dar tudo sem reservas nem condições, no outro acontece a despedida sem que nada o faça prever.

- Eu fico bem – menti

Nunca soube mentir, mas ultimamente esta mentira parecia convincente. Dizem que se repetirmos muitas vezes uma mentira, ela torna-se verdade.

- Faz uma boa viagem – disse eu, resignado.

- Ver-te-ei em breve – mentiu ela. – Podes regressar a casa quando desejares, eu voltarei assim que precisares de mim.

- Não te preocupes comigo – pedi eu, a chorar por dentro.

Abraçou-me firmemente durante um instante e no segundo seguinte partiu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Crepúsculo

Escrevo para te dizer que tenho tido muitas saudades tuas. Estes dias têm sido muito difíceis, há alturas em que tenho de fazer um esforço para fazer as coisas mais simples, como respirar. Em princípio, viver é fácil: basta expirar e inspirar e deixar que o resto aconteça naturalmente. Mas começa a ser impossível quando a razão de existir se vai desvanecendo. Sinto muito a tua falta e não sei o que hei-de fazer, pressinto que a cada dia que passa ficas mais longe de mim e menor é a probabilidade de voltares. E não quero pensar que não vais voltar porque não consigo imaginar o resto da minha vida sem ti. Tento dizer a mim próprio que te foste embora, mas o meu corpo é o primeiro a não querer acreditar e a ter vontade de estar perto de ti, sentir o teu toque, ouvir a tua voz, saber que não estás longe.

Olho para o nosso passado e noto que não havia forma de me aperceber que melhor era impossível. Lembro-me que quando ia ter contigo ficava a imaginar como me irias aparecer e quando nos encontrávamos estavas sempre deslumbrante, muito melhor do que me tinha passado pela cabeça. O que eu gostava mais em ti nessa altura era o olhar de esperança cada vez que me vias, tão diferente do olhar de desilusão de agora. Nunca deixei de sentir a emoção de estar contigo, mas compreendo que haja feridas que nunca mais cicatrizem, coisas que nem o tempo pode apagar. Reconheço que estiveste sozinha quase sempre, mesmo quando eu estava perto, por isso é natural que não sintas a minha falta. Gostava apenas de saber o momento exacto em que deixaste de sentir um calafrio durante o meu abraço, para poder ir lá e abraçar-te com o dobro do amor, dizer-te aquilo que sempre esteve dentro de mim, mas que nunca te soube explicar.

As luzes estão a apagar-se. É tarde demais para te dizer que farei tudo o que quiseres e que concordarei com tudo o que disseres. Sempre que conversamos falas de um passado diferente do meu: para ti foram momentos de confusão e tristeza, para mim foram os dias mais felizes da minha vida. Mas sei que tudo tem um fim, a única certeza da vida é que nascemos e morremos. Aí vem a escuridão.

sábado, 5 de março de 2011

Cidade sem nome

Caminho mil quilómetros pelas ruas da minha cidade, passeios frios de betão, pedra e cimento, casas envelhecidas, luzes monocromáticas, gente a passar de um lado para o outro, com pressa de chegar um sítio que não entendo, os carros a cavalgar, os condutores a buzinar, a gritar palavrões uns aos outros, remoídos por uma raiva cega que me choca,

- Sai da frente, pá, és mesmo uma besta.

As grandes cidades são selvas áridas cheias de predadores, pessoas agressivas de cara fechada que lutam pela sobrevivência, hoje a caçar, amanhã a serem caçadas, a defenderem o território em lutas tribais, sem misericórdia, sem tempo para um sorriso sincero ou um verdadeiro acto de generosidade gratuita, sem pena ou remorsos por não parecerem seres humanos,

- Sai daí da minha frente antes que te parta o focinho.

Caminho mil quilómetros e passo por vagabundos e pobres que servem para as pessoas ditas normais se lembrarem do preço do fracasso, o preço de se parar de caminhar e olhar para as árvores do jardim de pedra, por isso continuo e finjo que não olho, continuo sem saber onde os passos me levam, me carregam por ruas sem refúgio, esquinas que vão dar ao mesmo sítio, prédios com vertigens, igrejas frígidas e secas, lado a lado com prostitutas secas e frígidas, ambas quase sempre disponíveis, mas ambas a funcionar apenas quando se mete a moeda da ranhura,

- Queres alguma coisa, querido?

Quando a noite cai, a cidade despe-se e alguém acende a lua, a paz do silêncio inunda as ruas, mas mesmo assim ainda ouço as vozes das pessoas que por ali passaram durante o dia, talvez seja um sinal de que a minha mente se está a render, a verdade é que me sinto a desvanecer e espero que a cidade receba a minha alma nos seus braços.