segunda-feira, 24 de maio de 2010

Minha pequenina,

Escrevo-te para que saibas quem é o teu pai, para que entendas que mudaste a minha vida quando nasceste. Talvez ao longo do tempo tenhas paciência para ler isto mais do que uma vez e é bem possível que em alturas diferentes entendas de forma variada o que quero dizer. Mas isso é uma das maiores belezas da vida: ter muitas cores, não ser sempre igual. Quando fazes um desenho fica sempre mais bonito quando pintas o céu de verde, amarelo e azul, ou o sol de cor-de-rosa e vermelho. Nunca acredites em quem te disser que a vida é a preto e branco, até porque as coisas não têm de ser necessariamente como as vemos com os olhos e se as sentires com o teu coração vais descobrir um mundo maravilhoso nos objectos, acontecimentos e pessoas mais imprevisíveis.

Quando soube que existias, chorei. Chorei como nunca na vida, com lágrimas dum amor que não conhecia. Não sabia se estava pronto para ser o homem que deveria ser, mas acho que todas as pessoas sentem o mesmo, seja por um segundo ou pelo resto da vida. Nunca ninguém tinha estado tão dependente de mim e sentir isso é uma experiência assustadora que só quem é pai pode saber. Esperei ansiosamente pela tua chegada e desde a barriga da mãe até ao meu colo, resguardei-te diariamente com todo o carinho.

Fui eu que te dei as boas vindas a este mundo, de braços abertos à tua espera, enquanto tu chegavas assustada, indefesa, confusa, sem saberes o que esperar da incrível aventura que tinha acabado de começar. Abracei-te pela primeira vez e senti que afinal valeu tudo a pena. Estendi-te a mão e tu pegaste nela como se fosse a coisa mais importante do mundo, mostrei-te as cores mais bonitas, indiquei-te os caminhos mais fáceis, ensinei-te os segredos mais escondidos. Quando caíste, levantei-te; quando choraste, consolei-te; quando tiveste medo, abriguei-te. Estive sempre contigo nos primeiros anos, protegi-te, amparei-te, criei-te, fiz-te feliz. Nunca tive tanta vaidade como quando andava contigo na rua de mãos dadas. Nem nunca compreendi porque tinhas tanto orgulho em mim, porque te sustinhas a cada palavra minha, apesar de eu quase nunca dizer nada de importante. Mas foram estes pequenos mistérios que fizeram a minha travessia neste mundo valer a pena.

Tens de perceber que a vida das pessoas grandes é como aqueles carrosséis enormes que tu sempre tiveste medo de andar nas feiras, porque sobem muito e descem muito e andam demasiado depressa. Sempre preferiste andar naqueles carrosséis pequeninos que têm muitos balões e andam devagarinho, com música calma. Mas a vida dos crescidos nem sempre pode ser assim e normalmente há demasiadas subidas e descidas. E o pior desses carrosséis enormes é que às vezes parece que nunca mais acabam de descer, queremos sair e não conseguimos. Mas sabes qual é o segredo? Esperar, porque mais tarde ou mais cedo há outra subida e depois outra descida e por aí adiante. Se estivermos demasiado preocupados e com medo acabamos por não gozar a viagem.

Sabes, nunca conheci o meu pai: quando eu nasci já o avô tinha ido para o céu. Umas das minhas maiores tristezas foi saber que ele nunca olhou para mim, eu nunca adormeci no colo dele, nunca dormimos agarrados um ao outro. Isso é algo que sempre teremos, tu e eu, nada poderá fazer desaparecer esses momentos. Não há razão para alguma vez te sentires perdida, porque sempre que estiveres aflita basta fechares os olhos que eu vou estar, como sempre estive, abraçado a ti a proteger-te.

7 comentários:

Paula disse...

Sem mais palavras... Perfeito.

Anónimo disse...

Excelente, impecável, delicado, um lindo texto que descreve o amor de pai por um filho,um amor incomparável, imensurável e incondicional.

Maria Antónia disse...

Texto perfeito. Mas também o pai perfeito, o marido que todas as mulheres querem ter. Parabéns.

bia santos disse...

Lindo...

Mortanguelaman disse...

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mortanguelaman.blogspot.com

Palavras Mortas disse...

Quase chorei,quase...Brother você escreve muito,e suas palavras são colocadas perfeitamente,parabéns pelo seu talento,geralmente não gosto de textos subjetivos,mas os seus são demais!

É melhor começar a pensar e agir! disse...

que lindo.. me emocionei! ^^