quarta-feira, 24 de março de 2010

De olhos bem abertos

Encontrei uma fotografia tua. Aqueles foram os dias mais felizes da minha vida. Nós os dois a descer a rua de bicicleta, a jogar à bola ou ao pião. Parece que foi ontem. Tinhamos os papéis principais numa história fantástica que viviamos todos os dias, em busca de tesouros enterrados, a lutar contra monstros e dragões, a salvar a honra de mil princesas. De olhos bem abertos a olhar o mundo, os dias eram um doce néctar que bebíamos directamente da fonte da vida.

Eramos verdadeiramente livres. Corríamos descalços pela praia fora, a tentar chegar ao infinito, a descobrir os mistérios de um mundo que se abria maravilhosamente à nossa frente. Sem portas nem paredes, sem preocupações nem responsabilidades, o final de cada dia era o epílogo de um conto que acabava sempre bem.

Foste o melhor amigo que alguém pode ter. Nunca mais tive outro igual. Recebeste socos e pontapés em vez de mim, conseguias sempre chegar primeiro em lutas de rua e jogos violentos. É impossível lembrar-me de todas as vezes que me defendeste, sem nunca pedires nada em troca ou sequer falares sobre o assunto.

Pensei que as tinha rasgado todas, mas hoje encontrei uma fotografia tua. Coisas que não pudemos controlar meteram-se no caminho. Nunca mais tive um amigo assim. Se tivéssemos mais um dia, gostava de te poder agradecer tudo o que fizeste por mim. Na verdade, nunca me despedi de ti.