quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Eu não espio

Hoje segui-te outra vez durante todo o dia. Vi-te a sair de casa e a fazeres desaparecer toda à gente à tua volta. A cada passo teu as pessoas comuns extinguem-se como poeira e nada mais importa. Talvez não o saibas, mas a tua pele branca brilha ao sol quando estás na paragem à espera do autocarro. Ficas apertada no meio daquela gente toda e as tuas pernas reluzem no meio do cinzento dos vestidos coloridos das outras mulheres. Fico sempre revoltado por te ver assim, imaculada e perfeita, no meio daquela corja de abutres.

Hoje apanhaste o cinquenta e quatro, porque o vinte e dois nunca mais aparecia e não podias chegar outra vez atrasada. Tiveste que andar dois quarteirões na graciosidade do teu passo apressado, mas mesmo assim paraste trinta e dois segundos quando a rapariga enervantes dos inquéritos de rua te pediu para responderes a algumas perguntas - sim, porque tu és assim, caridosa e preocupada com toda a gente, mesmo que isso te prejudique. Vi-te entrar no edifício onde trabalhas, a ires para casa sozinha à noite, a andares mais apressada nas ruas com pouca gente. Reconheço bem os teus passos amedrontados e fico com receio que aches que sou um tarado pervertido, por isso tenho sempre muito cuidado. Sei que poderias pensar que eu te espio, por isso preferi nunca te dizer que te vejo ao longe.

Talvez não entendesses que não me sentia assim há tanto tempo - a minha vida estava tão fria e monótona, quando de repente apareceste tu e fizeste uma revolução cá dentro, entraste sem pedir licença na melancolia da minha alma, tranformaste a minha vida com o poder de um deus que realmente se preocupa com os seus filhos e fizeste-me pensar que a vida afinal tem sentido. Há algo cá dentro que é maravilhoso quando estou assim, parece que fico num estado de graça permanente, por isso abençoada sejas por me fazeres sentir isto tudo: foi preciso um milagre para eu poder sorrir outra vez e tu operaste esse milagre através do teu sorriso. Fizeste de mim aquilo que sou hoje e eu sou teu para sempre, agora pertencemo-nos um ao outro. E um dia destes arranjarei forma de sermos um.