O Natal da minha infância é um lugar colorido, cheio de luzes a acender e a apagar, ainda não estava quase ninguém morto e ouvia-se sempre alguém a rir nos quatro cantos da casa velha. Ainda ouço o vento a bater nas árvores mais próximas das janelas, sinto o cheiro forte da terra depois da chuva e o calor da grande lareira da sala que nos juntava a todos. O presépio com imagens do tempo de Cristo, que eu até hoje posso jurar que tinham vida própria e se mexiam, os pastores e os reis magos a subirem o monte feito com musgo verdadeiro e terra e água, no centro a Sagrada Família, para onde tudo convergia naquela noite de vinte e quatro.
Aqueles dias foram fundamentais para o resto da vida, o que eu sou neste momento e o que gostaria de ser, os meus valores, aquilo que é realmente importante para mim. Hoje é dia de Natal porque o calendário manda. As imagens do presépio sobreviveram mas parecem mortas. A lareira extinguiu-se há muito, os adultos já não são crianças e não há árvores, nem terra, nem musgo. Nem sequer calor ou frio.