sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal

O Natal da minha infância é um lugar colorido, cheio de luzes a acender e a apagar, ainda não estava quase ninguém morto e ouvia-se sempre alguém a rir nos quatro cantos da casa velha. Ainda ouço o vento a bater nas árvores mais próximas das janelas, sinto o cheiro forte da terra depois da chuva e o calor da grande lareira da sala que nos juntava a todos. O presépio com imagens do tempo de Cristo, que eu até hoje posso jurar que tinham vida própria e se mexiam, os pastores e os reis magos a subirem o monte feito com musgo verdadeiro e terra e água, no centro a Sagrada Família, para onde tudo convergia naquela noite de vinte e quatro.

Aqueles dias foram fundamentais para o resto da vida, o que eu sou neste momento e o que gostaria de ser, os meus valores, aquilo que é realmente importante para mim. Hoje é dia de Natal porque o calendário manda. As imagens do presépio sobreviveram mas parecem mortas. A lareira extinguiu-se há muito, os adultos já não são crianças e não há árvores, nem terra, nem musgo. Nem sequer calor ou frio.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Inverno da Alma

Ninguém imagina a dor que é viver em mim. Escrever não é um prazer, mas também não é uma obrigação. É antes o último sonho de um condenado a viver os últimos dias no corredor da morte. É caminhar sozinho num nevoeiro habitado por todas as criaturas que atormentaram a minha infância, caminhar devagar com medo que um buraco me sugue e me leve para um outro nevoeiro sem portas nem janelas, nem verdades por revelar.

Faz frio e chove lá fora, mas eu não estou cá dentro, onde está seco e não deve fazer tanto frio. Estou lá fora, à chuva, ofegante mas livre, gelado mas à procura. Ninguém me vê porque é de madrugada e não há quem se queira molhar num frio destes, provavelmente já está toda a gente a dormir.

Talvez um dia consiga começar e terminar um livro, talvez quando o desespero me deixar em paz, ou então o sofrimento, o caos, a insegurança e todos os fantasmas do passado e do futuro. O remorso de não ser nada transforma a escrita na última esperança de ser tudo. Mas olho em redor e vejo que toda a gente tenta fazer o mesmo, todos têm algo a dizer, mesmo que seja a maior alarvidade embrulhada numa gigantesca falta de técnica e talento. E em conjunto são um badalo que emitem um ruído que ressoa dentro da minha cabeça e me faz estremecer de dor. É nestas alturas que paro e me sento congelado a olhar para o infinito. Estão todos demasiado ocupados a escrever para saberem ler.

As luzes das decorações de Natal não me aquecem e continua a chover. Já nem me preocupo com as poças de água, nada me faz desviar deste caminho tão claro e certo, mas há uma torneira mal fechada na cozinha que não pára de pingar. Não tenho um milímetro de roupa seco e tremo de frio, apesar de estar cá dentro, a olhar lá para fora. A desejar que, ao menos por esta noite, algo faça sentido.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Uma gota de chuva

Ela era Graça, em nome e essência. Para os que amava, espalhava força, vida, riso e luz. E para mim espelhava também mágoa. Desde o primeiro dia que a vi, nada nem ninguém que me aconteceu foi tão assustador e confuso, porque não há ninguém que me tenha dado tanta segurança, mas fragilidade, ninguém que me tenha feito sentir tão importante, mas insignificante.

Conheci-a num jantar de amigos, na serenidade e calor da sua casa. Desde o primeiro instante, não consegui deixar de me levar pela luz que ela naturalmente irradiava. Para mim, foi o farol que me guiou e protegeu nos piores momentos de fraqueza e desorientação. Essa noite foi o primeiro dia do resto da minha vida. Foi aí que parei de me procurar, porque o mundo em que eu acreditava sem saber porquê começou a fazer sentido e até os problemas mais inquietantes se dissolveram numa harmonia que eu não julgava possível existir. Mas foi também numa noite como essa que renasci para depois morrer.

As circunstâncias da vida foram mais fortes do que as nossas vontades juntas. Alguns diriam que o que aconteceu foi uma desgraça ou um desperdício. Eu prefiro contar uma história de amor que não se concretizou, de uma gota de chuva que não caiu em cima de nenhuma flor mas de uma pedra seca, que para sempre ficou agradecida.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Dia da Libertação

De um momento para o outro, a realidade deu-lhe aquilo que tanto esperou e suplicou, nos dias entediantes e nas noites angustiantes. Mas aquilo que mais queria pareceu-lhe subitamente vazio. Vazio de sentido. O espaço aberto e infinito da liberdade tinha trocado de lugar: a prisão, aflitiva e desesperante, tornou-se, numa parte qualquer do caminho, a vida cá fora. Lá dentro, na segurança torturadora da rotina, tinha criado um mundo próprio. Cá fora não tinha nada e era menos que nada. Aperceber-se de tudo isto em breves segundos foi um impacto violento que não contava.

Para não ficar prostrado no chão em terror, fez aquilo que sempre fez desde o primeiro dia na prisão: caminhou em frente, passo após passo, como se de cada movimento dependesse a sua sobrevivência. Quanto mais se afastava da fortaleza de betão, mais falta sentia da previsibilidade da violência das alas, do constante sadismo autoritário dos guardas, do repetido som agudo das grades de metal a fecharem-se e da interminável rotina do trabalho manual das oficinas. Os cem metros que fez, desde o estabelecimento prisional até à paragem de autocarro, pareceram-lhe quilómetros. Na verdade, cada passo teve, naquele momento, a importância de mil passos do primeiro homem na lua e apesar de não ter um grande valor para a humanidade, foram enormes espaços de calçada conquistados por um homem só.

Mas sentia-se tal e qual um astronauta numa lua longínqua, a uma distância infinita da terra. Estava parado a tentar recuperar o fôlego quando o autocarro parou abruptamente mesmo à sua frente, abriu a porta e esperou ansiosamente a sua entrada, como a ordem coerciva de um guarda impaciente.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Vem comigo

Vem comigo, anda comprar dois bilhetes só de ida para o comboio sem destino, onde a amizade e o amor são verdadeiros, a juventude é eterna, não há doenças, está sempre bom tempo e nunca temos frio ou fome. Ouvi dizer que lá as conversas terminam sempre com um sorriso sincero e não existe o ódio ou o sofrimento. Vem viver o final das histórias dos livros onde tudo acaba bem, como as memórias daquele passado que nunca vivemos.

Vem comigo e deixa de estar na escuridão, ou deixa-me estar contigo na tua escuridão, vem como és, como sempre foste, como eu sempre esperei que fosses, desta vez sem promessas e juras eternas, sem mentiras e canções em playback. Vem andar de bicicleta, mesmo que não saibas e tenhas medo de cair, vem nadar comigo, mesmo que tenhas medo de te afogar, coloca a tua vida nas minhas mãos e confia que não vou deixar que nenhum mal te aconteça.

Vem comigo, ou então deixa-me estar na solidão, longe da tua ambição claustrofóbica, dos fantasmas que te perseguem, das vozes esquizofrénicas que me obrigaste a ouvir durante todos estes anos. A verdade é que tenho medo de ficar sozinho, mas mais medo ainda que venhas comigo. Nunca me protegeste de nada, nem mesmo de mim mesmo. Para onde eu quero ir não há portas, nem janelas, mas também não há paredes. Talvez encontre o que procure, ou talvez fique apenas sentado à espera que venhas comigo.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Minha pequenina,

Escrevo-te para que saibas quem é o teu pai, para que entendas que mudaste a minha vida quando nasceste. Talvez ao longo do tempo tenhas paciência para ler isto mais do que uma vez e é bem possível que em alturas diferentes entendas de forma variada o que quero dizer. Mas isso é uma das maiores belezas da vida: ter muitas cores, não ser sempre igual. Quando fazes um desenho fica sempre mais bonito quando pintas o céu de verde, amarelo e azul, ou o sol de cor-de-rosa e vermelho. Nunca acredites em quem te disser que a vida é a preto e branco, até porque as coisas não têm de ser necessariamente como as vemos com os olhos e se as sentires com o teu coração vais descobrir um mundo maravilhoso nos objectos, acontecimentos e pessoas mais imprevisíveis.

Quando soube que existias, chorei. Chorei como nunca na vida, com lágrimas dum amor que não conhecia. Não sabia se estava pronto para ser o homem que deveria ser, mas acho que todas as pessoas sentem o mesmo, seja por um segundo ou pelo resto da vida. Nunca ninguém tinha estado tão dependente de mim e sentir isso é uma experiência assustadora que só quem é pai pode saber. Esperei ansiosamente pela tua chegada e desde a barriga da mãe até ao meu colo, resguardei-te diariamente com todo o carinho.

Fui eu que te dei as boas vindas a este mundo, de braços abertos à tua espera, enquanto tu chegavas assustada, indefesa, confusa, sem saberes o que esperar da incrível aventura que tinha acabado de começar. Abracei-te pela primeira vez e senti que afinal valeu tudo a pena. Estendi-te a mão e tu pegaste nela como se fosse a coisa mais importante do mundo, mostrei-te as cores mais bonitas, indiquei-te os caminhos mais fáceis, ensinei-te os segredos mais escondidos. Quando caíste, levantei-te; quando choraste, consolei-te; quando tiveste medo, abriguei-te. Estive sempre contigo nos primeiros anos, protegi-te, amparei-te, criei-te, fiz-te feliz. Nunca tive tanta vaidade como quando andava contigo na rua de mãos dadas. Nem nunca compreendi porque tinhas tanto orgulho em mim, porque te sustinhas a cada palavra minha, apesar de eu quase nunca dizer nada de importante. Mas foram estes pequenos mistérios que fizeram a minha travessia neste mundo valer a pena.

Tens de perceber que a vida das pessoas grandes é como aqueles carrosséis enormes que tu sempre tiveste medo de andar nas feiras, porque sobem muito e descem muito e andam demasiado depressa. Sempre preferiste andar naqueles carrosséis pequeninos que têm muitos balões e andam devagarinho, com música calma. Mas a vida dos crescidos nem sempre pode ser assim e normalmente há demasiadas subidas e descidas. E o pior desses carrosséis enormes é que às vezes parece que nunca mais acabam de descer, queremos sair e não conseguimos. Mas sabes qual é o segredo? Esperar, porque mais tarde ou mais cedo há outra subida e depois outra descida e por aí adiante. Se estivermos demasiado preocupados e com medo acabamos por não gozar a viagem.

Sabes, nunca conheci o meu pai: quando eu nasci já o avô tinha ido para o céu. Umas das minhas maiores tristezas foi saber que ele nunca olhou para mim, eu nunca adormeci no colo dele, nunca dormimos agarrados um ao outro. Isso é algo que sempre teremos, tu e eu, nada poderá fazer desaparecer esses momentos. Não há razão para alguma vez te sentires perdida, porque sempre que estiveres aflita basta fechares os olhos que eu vou estar, como sempre estive, abraçado a ti a proteger-te.

quarta-feira, 24 de março de 2010

De olhos bem abertos

Encontrei uma fotografia tua. Aqueles foram os dias mais felizes da minha vida. Nós os dois a descer a rua de bicicleta, a jogar à bola ou ao pião. Parece que foi ontem. Tinhamos os papéis principais numa história fantástica que viviamos todos os dias, em busca de tesouros enterrados, a lutar contra monstros e dragões, a salvar a honra de mil princesas. De olhos bem abertos a olhar o mundo, os dias eram um doce néctar que bebíamos directamente da fonte da vida.

Eramos verdadeiramente livres. Corríamos descalços pela praia fora, a tentar chegar ao infinito, a descobrir os mistérios de um mundo que se abria maravilhosamente à nossa frente. Sem portas nem paredes, sem preocupações nem responsabilidades, o final de cada dia era o epílogo de um conto que acabava sempre bem.

Foste o melhor amigo que alguém pode ter. Nunca mais tive outro igual. Recebeste socos e pontapés em vez de mim, conseguias sempre chegar primeiro em lutas de rua e jogos violentos. É impossível lembrar-me de todas as vezes que me defendeste, sem nunca pedires nada em troca ou sequer falares sobre o assunto.

Pensei que as tinha rasgado todas, mas hoje encontrei uma fotografia tua. Coisas que não pudemos controlar meteram-se no caminho. Nunca mais tive um amigo assim. Se tivéssemos mais um dia, gostava de te poder agradecer tudo o que fizeste por mim. Na verdade, nunca me despedi de ti.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sonhos de mulher

Conhecer alguém é difícil nos dias de hoje, quanto mais encontrar a pessoa com quem queremos passar o resto da vida. Não que faltem as opções, porque com a internet e a globalização nunca houve tanta escolha na história da humanidade, mas ao mesmo tempo parece que é mais complicado arranjar alguém decente, que sirva para apresentar aos pais, ter almoços de Domingo, convidar para ir aos aniversários dos sobrinhos, ir de férias para partilhar momentos verdadeiros e não apenas uma cama para sexo. Não me consigo imaginar a ter filhos com nenhum dos homens com quem saí nos últimos anos. E mesmo que na altura tivesse imaginado isso, vejo agora que eram momentos de pura ilusão, erros que felizmente não cometi. É assim que começamos a duvidar da existência do amor. A paixão, essa sei bem demais que é real. Mas o amor... onde foram parar os contos de fadas, os princípes e as princesas, os finais felizes. Ainda hoje espero que um cavaleiro salvador apareça e finalmente me liberte da realidade das eternas semanas de trabalho e solidão.

Aos vinte anos, queremos começar a vida junto do homem que sempre sonhámos, ele alto, bonito, carinhoso, fã de comédias e amigo dos animais, com um emprego importante e viciado em exercício, nós a trabalhar num escritório de dia e a divertir-nos de noite.

Aos quarenta, os requisitos físicos deixam de ser importantes e basta alguém que goste da nossa companhia, que ganhe mais dinheiro do que nós, seja de boas famílias, que adore os filhos que tivemos com outro, mas que ainda queira ter filhos e seja suficientemente saudável para brincar com eles.

O tempo passa e o amor, tal como o idealizámos um dia, deixa de existir. Passa tudo a ser mais prático, mais frio. Hoje quero apenas contar com alguém, ou pelo menos ter ao meu lado uma pessoa que não me desiluda naquilo que é mais importante. Não preciso contar todos os meus segredos, mas quero ter alguém a quem me queixar quando precisar desabafar, que me ouça com o mínimo de paciência quando eu tiver um ataque de nervos irracional.

A única coisa de que tenho medo é morrer sozinha. Quando envelhecemos deixamos os receios e ansiedades de lado, mas este em particular fica e aumenta de ano para ano. Porque podemos chegar a velhas sem encontrar ninguém, ou ele pode muito bem fazer a desfeita de morrer primeiro. Quanto aos meus filhos, se um dia os tiver, vão fazer o mesmo que eu e pôr os pais num asilo logo que tiverem oportunidade. Não os posso censurar por isso. Na verdade, toda a gente morre sozinha. Talvez num qualquer quarto de Hospital rodeada por gente estranha, médicos apressados e enfermeiras mal-educadas. Talvez numa rua, com pessoas a correr de um lado para o outro a chamar por uma ambulância. Ou até talvez na nossa própria cama, com a família toda espalhada pela casa, à espera que o inevitável aconteça para que as suas vidas voltem depressa ao normal.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Eu não espio

Hoje segui-te outra vez durante todo o dia. Vi-te a sair de casa e a fazeres desaparecer toda à gente à tua volta. A cada passo teu as pessoas comuns extinguem-se como poeira e nada mais importa. Talvez não o saibas, mas a tua pele branca brilha ao sol quando estás na paragem à espera do autocarro. Ficas apertada no meio daquela gente toda e as tuas pernas reluzem no meio do cinzento dos vestidos coloridos das outras mulheres. Fico sempre revoltado por te ver assim, imaculada e perfeita, no meio daquela corja de abutres.

Hoje apanhaste o cinquenta e quatro, porque o vinte e dois nunca mais aparecia e não podias chegar outra vez atrasada. Tiveste que andar dois quarteirões na graciosidade do teu passo apressado, mas mesmo assim paraste trinta e dois segundos quando a rapariga enervantes dos inquéritos de rua te pediu para responderes a algumas perguntas - sim, porque tu és assim, caridosa e preocupada com toda a gente, mesmo que isso te prejudique. Vi-te entrar no edifício onde trabalhas, a ires para casa sozinha à noite, a andares mais apressada nas ruas com pouca gente. Reconheço bem os teus passos amedrontados e fico com receio que aches que sou um tarado pervertido, por isso tenho sempre muito cuidado. Sei que poderias pensar que eu te espio, por isso preferi nunca te dizer que te vejo ao longe.

Talvez não entendesses que não me sentia assim há tanto tempo - a minha vida estava tão fria e monótona, quando de repente apareceste tu e fizeste uma revolução cá dentro, entraste sem pedir licença na melancolia da minha alma, tranformaste a minha vida com o poder de um deus que realmente se preocupa com os seus filhos e fizeste-me pensar que a vida afinal tem sentido. Há algo cá dentro que é maravilhoso quando estou assim, parece que fico num estado de graça permanente, por isso abençoada sejas por me fazeres sentir isto tudo: foi preciso um milagre para eu poder sorrir outra vez e tu operaste esse milagre através do teu sorriso. Fizeste de mim aquilo que sou hoje e eu sou teu para sempre, agora pertencemo-nos um ao outro. E um dia destes arranjarei forma de sermos um.