sábado, 31 de janeiro de 2009

Um dia

És frágil como uma pena, flutuas pela rua fugindo dos cães e vais sempre pelo lado mais seguro do passeio. Vives numa redoma de vidro inquebrável, todos te protegem da dor e o sofrimento é uma palavra proibida. Estudaste pintura numa universidade inglesa, sabes de cor todos os filósofos importantes e conheces montes de gente interessante.

Um dia vais descobrir como é a vida real, ninguém para matar as baratas que sobem pela parede à noite, podes bem chamar pelo teu pai porque ele não ouve, está a dormir morto de cansaço porque o dia de um trabalhador normal é sempre longa. Vais ter de procurar emprego para não morrer à fome, ir a todas as entrevistas de mini-saia e perceber que só estás habilitada para servir à mesa ou arrumar quartos.

Vais começar a ir ao supermercado aos domingos à tarde e roubar as coisas estúpidas que usas, os cremes, as bases, as pinturas – que vais pôr sozinha numa qualquer sábado à noite, para saires e procurares companhia. Mas sem saberes, vais encontrar um homem comum, que não sabe de artes ou conhece Jesus Cristo, que vai ficar contigo eternamente até conseguir ficar contigo uma vez . Vais estar com todos os homens do quarteirão porque não há mais nada para fazer e os amigos que julgavas ter te abandonaram.

Um dia vais falhar como qualquer pessoa, sentir uma verdadeira desilusão, entender o que acontece quando o chão desaparece à tua volta e não tens outra hipótese senão mentires, enganares, fazeres tudo aquilo o que as freiras da escola te ensinaram ser errado.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Silêncio virtual

às vezes sinto-me tão cansada, tu sempre aí sentado, da televisão para o computador, do computador para a televisão, não entendes que eu tenho sentimentos, sou uma pessoa como qualquer outra, uma mulher com sonhos, desejos e ambições, com medos, antipatias e fracassos, que necessita ser amada e acarinhada em muitas alturas do dia e não apenas depois do sexo, que precisa que converses, que fales de ti, que contes o que fizeste durante a semana sem ser ir da televisão para o computador e do computador para a televisão
(às vezes sinto-me tão cansada)
nunca quiseste casar comigo, mas quanto te apetece exiges sempre que eu seja a tua mulher, aquela que substitui a tua mãe desde que saíste de casa, que lava a tua roupa e cozinha para ti, aquela com quem dormes para afugentar os fantasmas que te aparecem à noite, mas no fundo nunca te perguntas se eu me sinto cansada de tudo isto e se não devemos prosseguir a nossa vida separados, eu livre, cheia de remorsos, primeiro com uma dor sufocante no fundo do peito e da alma, depois a ficar mais forte e a querer recomeçar a minha vida do zero, tu sem te importares se eu te deixei ou não, da televisão para o computador, do computador para a televisão