A primeira vez que o Agostinho viu a Susana foi numa romaria da aldeia em honra da Nossa Senhora dos Aflitos. Ele tinha vinte e quatro anos, ela dezasseis. O Agostinho estava em sentido, como qualquer homem temente a Deus deve estar à passagem da procissão, mas todos os anos era a mesma coisa e por isso estava a fazer um esforço para não adormecer: os andores com os santos, a banda de música, os bombeiros de capacetes e machados, os senhores da confraria, a guarda a cavalo, os meninos vestidos de anjinhos.
A Susana veio vestida de Nossa Senhora, surgindo como uma aparição no meio do cortejo: a pele branca e luminosa, os olhos negros e tristes, o corpo a deslizar pela calçada. O Agostinho ficou extasiado e à volta dele o tempo parou enquanto ela passava, mas mais tarde pensou que seria uma experiência mística e lembrou-se sempre daquele momento como uma graça divina.
Só algum tempo mais tarde é que reconheceu a Susana como uma criatura terrena, numa desfollhada em casa do Ti Manel. Ela estava sentada a arrancar as folhas às espigas, retirando delicadamente cada uma, como se estivesse a fazer um ritual complicado. Foi neste dia que o Agostinho jurou que a Susana haveria de ser sua. O que ele não contava é que o António também reparasse nela. Muito mais desembaraçado e prático que o Agostinho, convidou-a para sair nesse mesmo dia, passadas duas semanas foi a casa dela pedir permissão ao pai para poderem ir juntos ao magusto da aldeia e passados dois meses já eram namorados oficiais.
O Agostinho deixou de comer, andou doente semanas a fio e preocupou a família toda, mas nada disso fez a sua Susana reparar nele. Na verdade, ela nem sabia que ele existia e que alguém lhe tinha um amor tão intenso. O António era demasiado distante e foi com frieza que pediu a sua mão em casamento na altura certa. Casaram em pleno Agosto, no dia de maior calor daquele ano. Foi nessa hora que o Agostinho desistiu e finalmente se levantou da cama, mas nunca mais a esqueceu. Ainda hoje, passados quarenta anos, a observa de longe, mimando os netos e passeando ao fim da tarde com o marido. Um dia ainda há-de ser sua.