És frágil como uma pena, flutuas pela rua fugindo dos cães e vais sempre pelo lado mais seguro do passeio. Vives numa redoma de vidro inquebrável, todos te protegem da dor e o sofrimento é uma palavra proibida. Estudaste pintura numa universidade inglesa, sabes de cor todos os filósofos importantes e conheces montes de gente interessante.
Um dia vais descobrir como é a vida real, ninguém para matar as baratas que sobem pela parede à noite, podes bem chamar pelo teu pai porque ele não ouve, está a dormir morto de cansaço porque o dia de um trabalhador normal é sempre longa. Vais ter de procurar emprego para não morrer à fome, ir a todas as entrevistas de mini-saia e perceber que só estás habilitada para servir à mesa ou arrumar quartos.
Vais começar a ir ao supermercado aos domingos à tarde e roubar as coisas estúpidas que usas, os cremes, as bases, as pinturas – que vais pôr sozinha numa qualquer sábado à noite, para saires e procurares companhia. Mas sem saberes, vais encontrar um homem comum, que não sabe de artes ou conhece Jesus Cristo, que vai ficar contigo eternamente até conseguir ficar contigo uma vez . Vais estar com todos os homens do quarteirão porque não há mais nada para fazer e os amigos que julgavas ter te abandonaram.
Um dia vais falhar como qualquer pessoa, sentir uma verdadeira desilusão, entender o que acontece quando o chão desaparece à tua volta e não tens outra hipótese senão mentires, enganares, fazeres tudo aquilo o que as freiras da escola te ensinaram ser errado.