terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Amor na Aldeia

A primeira vez que o Agostinho viu a Susana foi numa romaria da aldeia em honra da Nossa Senhora dos Aflitos. Ele tinha vinte e quatro anos, ela dezasseis. O Agostinho estava em sentido, como qualquer homem temente a Deus deve estar à passagem da procissão, mas todos os anos era a mesma coisa e por isso estava a fazer um esforço para não adormecer: os andores com os santos, a banda de música, os bombeiros de capacetes e machados, os senhores da confraria, a guarda a cavalo, os meninos vestidos de anjinhos.

A Susana veio vestida de Nossa Senhora, surgindo como uma aparição no meio do cortejo: a pele branca e luminosa, os olhos negros e tristes, o corpo a deslizar pela calçada. O Agostinho ficou extasiado e à volta dele o tempo parou enquanto ela passava, mas mais tarde pensou que seria uma experiência mística e lembrou-se sempre daquele momento como uma graça divina.

Só algum tempo mais tarde é que reconheceu a Susana como uma criatura terrena, numa desfollhada em casa do Ti Manel. Ela estava sentada a arrancar as folhas às espigas, retirando delicadamente cada uma, como se estivesse a fazer um ritual complicado. Foi neste dia que o Agostinho jurou que a Susana haveria de ser sua. O que ele não contava é que o António também reparasse nela. Muito mais desembaraçado e prático que o Agostinho, convidou-a para sair nesse mesmo dia, passadas duas semanas foi a casa dela pedir permissão ao pai para poderem ir juntos ao magusto da aldeia e passados dois meses já eram namorados oficiais.

O Agostinho deixou de comer, andou doente semanas a fio e preocupou a família toda, mas nada disso fez a sua Susana reparar nele. Na verdade, ela nem sabia que ele existia e que alguém lhe tinha um amor tão intenso. O António era demasiado distante e foi com frieza que pediu a sua mão em casamento na altura certa. Casaram em pleno Agosto, no dia de maior calor daquele ano. Foi nessa hora que o Agostinho desistiu e finalmente se levantou da cama, mas nunca mais a esqueceu. Ainda hoje, passados quarenta anos, a observa de longe, mimando os netos e passeando ao fim da tarde com o marido. Um dia ainda há-de ser sua.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ontem, hoje e sempre

Faz frio, na pele, nas roupas, nos móveis, nos quadros, faz frio na minha face frígida, no amor, no ódio, na desilusão, na tristeza, na vingança, faz frio na verdade e na mentira, na certeza e na dúvida, faz frio e não me consigo aquecer.

Lá fora há uma claridade acabada de nascer que se insinua pelas cortinas e mostra as cores do quarto monocromático. O silêncio melancólico da rua embala o meu pensamento e acalma o frio. Há uma música suave, vinda não sei de onde, que me lembra as tardes de Verão da minha infância. Eu deitado na minha cama à espera que o tempo estabelecido para a sesta terminasse, a janela aberta e os postigos verdes fechados, uma aragem reconfortante a insinuar-se pelo quarto dentro, o gira-discos de vinil a tocar a melodia, eu sempre à espera da hora para ir lá para fora e fazer alguma coisa diferente de estar deitado a perder tempo, à espera sem saber porquê, como ontem, hoje e sempre.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Premonição

Escrevo estas palavras poucas horas antes de nos conhecermos, ainda não sei como és ou como te chamas, mas sei que te vou encontrar hoje. Por isso deixa o que estás a fazer agora e vem comigo contruir memórias. Vem como és, mostra-me sem receio a tua alma nua e fala-me dos medos mais profundos do teu inconsciente, lembra-te apenas que já sabia tudo sobre ti mesmo antes de ambos nascermos.

Daqui a muitos anos vou ficar a pensar na impressionante força do destino e em como poderia ter ficado em casa a ler um livro aborrecido até adormecer, ou ter ido ao cinema ver um filme inútil para ocupar a mente. Mas hoje prefiro sair, ir aos sítios onde as pessoas vão e se deixam ir, encontrar-te por acaso e deixar os nossos olhos fixarem-se brevemente, eternamente. Ficaremos assim, em silêncio. Vais aproximar-te e eu conhecerei antecipadamente todos os teus gestos, sem querer as nossas mãos irão tocar-se, a tua pele macia entrará suavemente na epiderme do meu ser e será esta a altura em que saberei que tudo ficará bem.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Um dia

És frágil como uma pena, flutuas pela rua fugindo dos cães e vais sempre pelo lado mais seguro do passeio. Vives numa redoma de vidro inquebrável, todos te protegem da dor e o sofrimento é uma palavra proibida. Estudaste pintura numa universidade inglesa, sabes de cor todos os filósofos importantes e conheces montes de gente interessante.

Um dia vais descobrir como é a vida real, ninguém para matar as baratas que sobem pela parede à noite, podes bem chamar pelo teu pai porque ele não ouve, está a dormir morto de cansaço porque o dia de um trabalhador normal é sempre longa. Vais ter de procurar emprego para não morrer à fome, ir a todas as entrevistas de mini-saia e perceber que só estás habilitada para servir à mesa ou arrumar quartos.

Vais começar a ir ao supermercado aos domingos à tarde e roubar as coisas estúpidas que usas, os cremes, as bases, as pinturas – que vais pôr sozinha numa qualquer sábado à noite, para saires e procurares companhia. Mas sem saberes, vais encontrar um homem comum, que não sabe de artes ou conhece Jesus Cristo, que vai ficar contigo eternamente até conseguir ficar contigo uma vez . Vais estar com todos os homens do quarteirão porque não há mais nada para fazer e os amigos que julgavas ter te abandonaram.

Um dia vais falhar como qualquer pessoa, sentir uma verdadeira desilusão, entender o que acontece quando o chão desaparece à tua volta e não tens outra hipótese senão mentires, enganares, fazeres tudo aquilo o que as freiras da escola te ensinaram ser errado.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Silêncio virtual

às vezes sinto-me tão cansada, tu sempre aí sentado, da televisão para o computador, do computador para a televisão, não entendes que eu tenho sentimentos, sou uma pessoa como qualquer outra, uma mulher com sonhos, desejos e ambições, com medos, antipatias e fracassos, que necessita ser amada e acarinhada em muitas alturas do dia e não apenas depois do sexo, que precisa que converses, que fales de ti, que contes o que fizeste durante a semana sem ser ir da televisão para o computador e do computador para a televisão
(às vezes sinto-me tão cansada)
nunca quiseste casar comigo, mas quanto te apetece exiges sempre que eu seja a tua mulher, aquela que substitui a tua mãe desde que saíste de casa, que lava a tua roupa e cozinha para ti, aquela com quem dormes para afugentar os fantasmas que te aparecem à noite, mas no fundo nunca te perguntas se eu me sinto cansada de tudo isto e se não devemos prosseguir a nossa vida separados, eu livre, cheia de remorsos, primeiro com uma dor sufocante no fundo do peito e da alma, depois a ficar mais forte e a querer recomeçar a minha vida do zero, tu sem te importares se eu te deixei ou não, da televisão para o computador, do computador para a televisão