sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Insónia

Passo a maior parte das minhas noites de olhos bem abertos e os móveis do quarto acompanham a minha insónia: um pequeno candeeiro pousado em cima da mesa de cabeceira que irradia uma luz cor de sangue e um espelho grande na parede nua que não reflecte nada nem ninguém. Ao centro, a cama silenciosa e triste, sempre à espera que se sirvam dela, tal prostituta velha que só espera o fim da noite.

A certa altura há uma música que começa a tocar, uma qualquer valsa vinda dos salões luxuosos de alguns séculos atrás. A cadeira de baloiço solitária, debaixo de espelho, repete em êxtase o mesmo gesto monótono ao som do rinchar compassado dos pés estendidos contra o chão de madeira. Na parede escura junto à porta, as pinturas deformadas dos quadros abstractos parecem querer libertar-se do seu sonho imaginário e tomar conta do mundo cinzento cá de fora. As cortinas cheias de flores tapam completamente a janela e, com ela, as mil luzes da cidade – do meio dos desenhos, em vez do jardim, aparecem caras horríveis a suplicar por clemência, soltando gritos mudos e pedindo-me ajuda. Eu escondo-me debaixo dos lençóis e adormeço cobardemente, como se tudo aquilo fosse apenas fantasia.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Se eu morresse hoje

Se eu morresse hoje não sentirias muito a minha falta, todos a darem-te atenção a dobrar, muito mais protegida e mimada sem entenderes a razão, a apontares para os homens das revistas parecidos comigo, mais tarde terás de viver com os mesmos traumas que eu, mas para já só acordas a meio da noite com um pesadelo e a chamares por essa palavra proibida lá em casa

- pai, pai, onde está o pai?

tu a contares aterrorizada os dias que faltam para o Dia do Pai, onde todos na escola fazem cartões com corações para dar aos pais, onde todos falam de tudo sobre os pais, tu envergonhada num canto a implorar que ninguém repare em ti, mas quando chega a tua vez de falar atrapalhas-te e os olhos do mundo fixam-se em ti,

- não tens pai?

como se fosses um bicho raro numa feira de curiosidades, a professora a querer saber todos os pormenores sórdidos, todos virados para ti com os olhos bem abertos à espera que uma lágrima tua os console e complete o espectáculo, a certa altura fazes-lhes a vontade, todos ficam finalmente sossegados, eles para sempre a olhar para ti com pena e caridade, tu a odiar essa palavra que gostarias que não existisse

- pai, ela não tem pai, não tens pai?

os amigos e família vão passar o tempo a falar-te das minhas qualidades, como se eu não tivesse defeitos, como se os meus continuados falhanços não tivessem importância, tu com raiva de quem se atreveu a falar mal de mim, mas com mais raiva ainda desse mito que não te deixa respirar e que te pesa mil toneladas em cima dos ombros, a tentares ser a sombra de alguém que nunca existiu, tu num canto qualquer a dizeres baixinho essa palavra sagrada e profana

- pai, pai, pai...


Nota: O blog Orgulhosamente Mau Feitio teve a gentileza de dar a este texto o primeiro prémio num passatempo que realizou. Os meus humildes agradecimentos. Aconselho os meus leitores a visitarem este blog, que está muito bem concebido.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Metamorfose

Fiquei ali deitado na escuridão, sem fechar os olhos. O corpo prostrado em qualquer canto, a alma dorida e esterelizada com antidepressivos. Nada de novo para ver, arco-íris macronomáticos, problemas sem resposta, soluções sem significado, verdades cheias de mentira, o passado inundado de gente desconhecida, o futuro submerso num buraco negro.  

Fiquei ali deitado na escuridão, mas com os olhos bem abertos. Uma minúscula voz dentro de mim grita alto, num último suspiro, insistindo para que eu resista. Cada movimento da minha respiração é um hino de fortaleza que vai crescendo a cada segundo, por isso inspiro antes de me afundar e o ar que expiro é um farol que me guiará à paz grandiosa dos salmos.

Fecha os teus olhos neste instante, agora sente-me, apenas tu e eu, sente a tua tatuagem na minha alma, ouve os segredos que ando a guardar para ti, saboreia os suspiros que me incriminam, olha bem para a minha luz na escuridão e repara que assim consegues ver-me como sempre desejaste que eu fosse.

Fecho os meus olhos neste instante, sinto-te agora, apenas eu e tu, não sei em que parte de mim estás, mas ouço o mar à minha frente, sinto o teu gosto a sal na minha boca, a doce brisa do nosso amor acaricia-me a face e finalmente consigo ver-te como sempre sonhei que serias.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Chuva de Maio

Lá fora a chuva caía e as gotas de àgua molhavam o betão quente da escola. Em pouco tempo, o calor dum Maio impaciente era substituído pela melancolia do barulho da chuva fresca lá fora. Aqueles eram os dias do fim dos tempos. Estávamos todos quase a padecer de uma doença incurável chamada idade adulta. A partir daí passaríamos a partilhar as horas num escritório com pessoas que nunca nos diriam nada e cujo único ponto em comum seria pisarmos os mesmos metros quadrados de carpete.

A vida era uma montanha russa em que tínhamos acabado de entrar e da qual sairíamos inevitavelmente em pouco tempo. O coração batia de excitação, de surpresa, de satisfação, batia por tudo e por nada, num mistério delicioso e surpreendente que não queríamos descobrir. Vivíamos todos num filme com uma banda sonora que nos inspirava e éramos os personagens principais de uma história interminável repleta de romance, fantasia, suspense, aventura e tudo o que fazia o mundo girar. Todos tínhamos segredos fantásticos, paixões destemidas, todos sempre juntos no amor, na tristeza, nos sonhos e nas lágrimas da chuva de Maio. Tudo acabou no último dia de aulas, num qualquer toque de campaínha. Na altura não nos apercebemos que era o início duma batalha letal da qual nenhum de nós sobreviveu.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O meu conto de fadas

Conhecemo-nos numa daquelas festas intermináveis em casa de um dos teus amigos da alta sociedade. Na primeira vez que te vi, não pude prestar grande atenção (hoje dirias que foi um triste prenúncio) porque estava a fazer conversa, a beijar e a ser beijada por pessoas que nunca tinha visto na vida. Todas a gente daquelas festas queria ser alguma coisa (ainda não sei o que queres fazer da vida), os homens vestidos com os fatos mais baratos das marcas mais caras, as mulheres sempre provocantes com cabelos longos impecáveis e roupas apertadas. Não havia ninguém sem um copo na mão. Foi assim que olhei para ti pela primeira vez (sei que nunca mais pensaste nisso), os brindes a comporem a habitual banda sonora do som dos vidros a baterem uns nos outros, eu a beber cocktails e a entregar os copos a um pobre diabo que fingia estar interessado em mim, tu no bar a pedir duas ou três bebidas de uma só vez.

Quando me pediste para dançar, só eu parecia estar ligeiramente alegre. Foi a única vez que me apertaste junto a ti da forma certa, como um homem a sério deve apertar uma frágil donzela (tu sempre achaste que eu devia ser uma segunda mãe). Confundiste-me - ou foi o álcool, já não sei nada. A partir daquele momento fiquei eternamente tua, apesar de todos os homens a sério que depois me quiseram, apesar de te teres continuado a encontrar com as mulheres fáceis daquelas festas ridículas, apesar de desde o início nunca ter duvidado que todos estes anos seriam um desperdício. A tua mãe sempre em nossa casa, a fingir-se de doente, a querer ser a tua única e verdadeira mãe, eu no psicanalista a tentar procurar na infância a resposta para as minhas depressões, tu numa qualquer bar a pedir duas ou três bebidas de uma só vez.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O amor

Quero amar mas estou farto desta palavra que afinal não significa nada e a cada dia vejo que tudo é impossível porque alguém como eu nunca se libertará. Já tive demasiados amores eternos e juras românticas, agora quero um amor que não signifique nada, sem regras nem conceitos, sem palavras nem significados, sem sentimentos nem culpas. Quero um amor que desafie os meus sonhos para que não existam mais barreiras, que não me alegre no inicio para que não me quebre no final.

Já aprendi muito nos dias de dor e ressentimento e saudade e paranóia e mágoa, agora apenas eu ditarei as leis do amor. Tudo o que sou e tudo o que sempre fui estão no que aprendi até agora, por isso agora não quero que me leiam a palma da mão, não quero mais lições, não quero que me indiquem o caminho ou me falem da verdade, quero apenas ficar aqui no chão sem esperar que alguém se deite ao meu lado.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Prisão Perpétua

A noite que nunca deveria ter acontecido reaparece sempre em qualquer instante antes do início da madrugada. A primeira amante, o contacto primordial, o toque ingénuo, tudo faz parte do fim da inocência, o fim de tudo. Trocava a minha alma para que nada tivesse acontecido, para que pudesse ser saudável outra vez, para poder ver o arco-íris no céu estrelado como antigamente. Dava tudo para ter aqui o sonho perdido daquela infância pacífica, o suspiro ansioso por uma juventude que nunca iria terminar, o riso solto e livre de quem não se sentia comprometido com nada nem ninguém. Agora estou preso dentro duma minúscula caixa quadrada que cerca completamente o meu tronco dobrado e esmaga todas as partes deste corpo sufocado e clautrofóbico.

Tudo ficou sujo desde então, com uma podridão que me impregna os ossos e a carne e o espírito e a mente. Todos se tornaram feios e tristes - e eu fiquei a fazer parte de toda a porcaria que se esconde por baixo das unhas do mundo. Sou apenas mais um animal, pintado com a mesma cor monótona e submissa, desenhado como um grão de areia, num pequeno quadro, esquecido no canto mais frio dum quarto sem portas nem janelas. Fui apenas mais um. Sou apenas mais um.