O Velho não tem família, há muito tempo que todos morreram, ele morreu para todos eles. Porque um velho é um estorvo, é um empecilho que ninguém quer cuidar, as rugas envergonham em frente aos amigos. Sobrevive com uma pensão miserável dada por um Estado invisível que o trata como um fardo, mas não pede nada a ninguém, nem na sopa dos pobres, nem uma esmola, nem aos vizinhos. Basta olhar para as covas do rosto para se ter a certeza que passa fome.
A sua casa cheira a esquecimento, madeira velha e livros antigos que nunca sairam das prateleiras. Do sofá para a cama, da cama para o sofá, a televisão é a única companhia – mas não fala com ele, não se preocupa, não ouve as histórias intermináveis que tem para contar. Passam programas que não entende, palavras que nunca ouviu, por isso fecha os olhos e deixa o som ligado, imagina um filme feito por si: uma criança perdida, a voz longínqua dos pais a chamarem por ele, um adulto que nunca se encontrou.
O Velho vive na província apesar de viver na cidade, conversa com todos mas ninguém lhe responde. Caminha devagar pela rua, pedindo desculpa por ainda não ter morrido, olhando as crianças a correrem de um lado para o outro, vendo os jovens a passearem a sua eternidade.
Chega ao parque e está sempre frio, espalha pelo chão um pouco de pão para as pombas e no meio das migalhas vão sempre um pouco de ilusões perdidas. Ainda está com fome, mas prefere matar um pouco da solidão com as pombinhas.
O fim está quase aí, talvez já tenha chegado ontem, mas hoje nunca é um bom dia para morrer. Arrasta-se pela rua para voltar a casa, do sofá para a cama, da cama para o sofá. Passam dias, passam noites, mas o vazio dentro do coração não passa, apesar das batidas fracas teimarem em continuar. Talvez amanhã tudo acabe, mas amanhã será sempre tarde demais.