quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A peixeira

De repente, ela aparece por detrás da banca do peixe, uma simples peixeira.

Os olhos negros, profundos como o mar, falam uma língua perdida no tempo e contam a história duma criança orfã, criada no fundo do oceano por um povo feliz que só entende a força da paz, da harmonia e da verdadeira beleza. Um dia alguém apareceu e escravizou o seu povo, arrancou-a de casa e obriga-a a ficar por detrás da banca do peixe.

Corta delicadamente a cabeça do animal e raspa as escamas, cada gesto tem um significado e cada suspiro é uma observação, pega docemente no bicho morto e inicia devagar um ritual de agradecimento e pede perdão pelo triste fim de vida.

Perto dela o tempo pára e quando se afasta nada volta a ser o mesmo, os passos deslizam suavemente pelo chão, como uma pena docemente empurrada pela brisa da manhã, a pele branca e suave, tão branca e luminosa.

A colega do lado corta o peixe sem remorsos, em facadas violentas e desprovidas de sentido, tira as tripas, amassa, esfaqueia outra vez, reprime a inveja com golpes assassinos. Ela não, tenho a certeza que já a ouvi murmurar uma oração por aquelas pequenas almas, sei que carrega o peso da sua morte em beneficio duma espécie desprezível.

De repente fui-me embora, não a libertei do castigo arbitrário, tive que me ir embora, ela é uma simples peixeira.

2 comentários:

PequenAprendiz disse...

Se esse post é sua estréia, meu parabéns.
Que conto interessante e criativo.
Em meio ao caos que a gente vive, é bom que possamos confabular assim.
Bom final de semana.
Abços

Ellen Regina disse...

Um leitor seu, o DAD, ao ler meus escritos gostou muito e me indicou o seu site (q honra, heim???). Eu já tinha passado por aqui hj de manhã mas não havia deixado comentários...