quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O Velho

O Velho não tem família, há muito tempo que todos morreram, ele morreu para todos eles. Porque um velho é um estorvo, é um empecilho que ninguém quer cuidar, as rugas envergonham em frente aos amigos. Sobrevive com uma pensão miserável dada por um Estado invisível que o trata como um fardo, mas não pede nada a ninguém, nem na sopa dos pobres, nem uma esmola, nem aos vizinhos. Basta olhar para as covas do rosto para se ter a certeza que passa fome.

A sua casa cheira a esquecimento, madeira velha e livros antigos que nunca sairam das prateleiras. Do sofá para a cama, da cama para o sofá, a televisão é a única companhia – mas não fala com ele, não se preocupa, não ouve as histórias intermináveis que tem para contar. Passam programas que não entende, palavras que nunca ouviu, por isso fecha os olhos e deixa o som ligado, imagina um filme feito por si: uma criança perdida, a voz longínqua dos pais a chamarem por ele, um adulto que nunca se encontrou.

O Velho vive na província apesar de viver na cidade, conversa com todos mas ninguém lhe responde. Caminha devagar pela rua, pedindo desculpa por ainda não ter morrido, olhando as crianças a correrem de um lado para o outro, vendo os jovens a passearem a sua eternidade.

Chega ao parque e está sempre frio, espalha pelo chão um pouco de pão para as pombas e no meio das migalhas vão sempre um pouco de ilusões perdidas. Ainda está com fome, mas prefere matar um pouco da solidão com as pombinhas.

O fim está quase aí, talvez já tenha chegado ontem, mas hoje nunca é um bom dia para morrer. Arrasta-se pela rua para voltar a casa, do sofá para a cama, da cama para o sofá. Passam dias, passam noites, mas o vazio dentro do coração não passa, apesar das batidas fracas teimarem em continuar. Talvez amanhã tudo acabe, mas amanhã será sempre tarde demais.

sábado, 27 de dezembro de 2008

O meu conto de Natal

A Morte, devoradora de todas as criaturas do Universo, aquela por quem todos se curvam, desde o animal mais feroz até ao homem mais sábio, aquela que tudo ofusca, até a luz da estrela mais brilhante de todos as galáxias. A Morte, a única coisa verdadeiramente certa da vida, aquela que faz os sinos tocarem uma valsa que ninguém dança, que arranca lágrimas, tristeza, angústia e solidão a todos os que ficam.

Um dia a Morte cansou-se, parou por uns instantes e sentou-se sobre uma pedra. Olhou em redor e viu crianças felizes a tomarem banho num riacho de àguas refrescantes, coberto de peixes de todos os tamanhos, cercado por flores de todas as cores e debaixo de laranjeiras perfumadas. Sentiu o aconchegante calor do vento da manhã e quando irrompeu um raio de sol por dentro do seu hábito negro, desatou a chorar.

Naquele preciso instante, apareceu um pequeno menino de cabelos pretos e olhar luminoso. Sem medo, pegou na ceifa como se fosse um brinquedo e aliviou um pouco do peso da Morte, que se fixou assustada nos seus olhos e escondeu um choro iminiente, finalmente perguntando com uma voz rouca e grossa:

- Mas tu não sabes quem eu sou?
- Sei, claro – respondeu o menino
- Mas então porque não tens medo de mim como todos os outros?

E o menino apontou para uma estrela que se via em pleno dia, em cima de uma manjedoura onde uma multidão silenciosa rodeava um casal humilde e uma criança acabada de nascer. A Morte aproximou-se, parou e, pela primeira vez desde a criação do mundo, esboçou um sorriso. Pegou na ceifa e foi-se embora revitalizada fazer o seu trabalho. Nada mais seria como dantes.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Sonho de Amor

nunca nada disto foi real, só ela a andar pelos corredores do liceu como se fosse a heroína dos meus sonhos de aventura, ela a rir-se porque eu bati com a cabeça quando estava a olhar envergonhado e me distraí, ela a sorrir, simplesmente a sorrir mas como se fosse a coisa mais bela do mundo, eu num canto qualquer a observar discretamente com todos os sentidos em alerta, à espera de ver um sinal ou um brilho nos olhos ou um qualquer cisco que me fizesse ter esperança de que no dia seguinte pudesse acontecer o final feliz das histórias de amor, que era sempre o princípio de algo maravilhoso que nunca entendi

- já deu o toque de entrada, não vens?

ela a flutuar como uma pena e a iluminar o mundo à sua volta, eu ancorado ao chão, a contemplar cada gesto como se fosse a poesia mais bela feita por um deus desconhecido, ela a aproximar-se em direcção a mim e eu cada vez mais afundado, a querer desaparecer para reaparecer como alguém especial, ela quase a chegar e eu transpirar, a tremer, a face cada vez mais vermelha, o coração a tentar sair à força do peito

- anda embora para as aulas, o que tens?

ela a passar por mim, ignorando-me como das outras vezes, eu aliviado, a pulsação a voltar ao normal, eu transtornado, secretamente inconsolável por ser mais pequeno que o mais pequeno dos insectos, ela a afastar-se e o mundo cinzento a voltar ao normal, eu a regressar às aulas mas com uma lição muito mais importante aprendida, o final das histórias fantásticas de aventura nunca seria real.

sábado, 13 de dezembro de 2008

A praia

Caminho lentamente na minha praia favorita. O sol aquece, o mar arrefece, a solidão aperta. Ando mil quilómetros e vou carimbando a marca dos meus pés da areia. O nevoeiro salgado da manhã traz-me os sabores exóticos do além-mar. Na linha do horizonte escondem-se segredos fantásticos, tesouros perdidos de piratas sanguinários, monstros marinhos prontos a serem derrotados por lanças heróicas, naus conquistadoras de terras misteriosas e seres demasiado imaginários para serem fantasia.

Sento-me nas rochas. A brisa fresca percorre a minha cara nua e inunda-me o corpo com um arrepio húmido. As ondas compõem o som da eternidade sobre a areia molhada, deslizam devagar, dançam melancolicamente entre si. Surge um rebentamento, depois outro, num violento movimento que não pára e em cada choque há pequenas pedras projectadas para junto de mim. Finalmente arrependidas, as ondas voltam a casa, felizes por sentirem o doce aconchego do mar. E eu quase juro ver sereias a nadar na quietude do amanhecer, sem ninguém que compreenda a sua existência, guiardiãs nocturnas da paz marítima, merecedoras de descanso depois de mais uma noite calma.

Descalço pela areia fina, percorro as minúsculas marcas das gaivotas. Atrás de mim, coladas à ponta dos calcanhares, perseguem-me pegadas fundas e frias, penetrando na areia com o som furioso de golpes de faca. Por mais que ande depressa, por mais que corra, perseguem-me até chegar junto da àgua. Molho os pés e desaparecem, tudo se esvanece. Acordo. Gelado, a tremer de frio, volto à civilização dos homens, longe das aventuras temerárias, dos mapas de tesouro, das caravelas destemidas e de toda a hipótese da vida vir a fazer sentido.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O quarto do Padre

Aquele parque no meio da cidade era, da minha janela, um oásis verde rodeado por infinitos blocos cinzentos de cimento. De dia as árvores conversavam alegremente entre si e ao princípio da noite começavam um tango sensual ao som do vento – com a chegada do Outono, a dança tornava-se mais erótica e frenética, com corpos cada vez mais despidos e agitados, até ficarem completamente nus já no Inverno, gemendo em êxtase palavras só partilhadas com a chuva violenta. Todos os que por lá passavam esqueciam-se por breves instantes que o homem saiu vencedor do confronto com a natureza. Apenas o barulho infernal do cerco de arco-íris de carros fazia lembrar a nossa supremacia. No centro do parque, um velho sem expressão feito de perda era inundado por pombos que, vitoriosos, pareciam troçar das façanhas esquecidas de toda a humanidade.

Cá fora, o meu quarto era uma cela rúde, àspera e fria, parecendo mais pequeno à medida que os segundos passavam e se tornam horas, dias e meses. Vozes silenciosas vinham de todos os lados, com excepção de um crucifixo morto pendurado em cima da cama gelada. Do lado esquerdo ainda havia espaço para uma mesa vestida com uma bíblia e uma cadeira de madeira pôdre. De vez em quando as paredes choravam lágrimas de dor e solidão – parecia apenas humidade, mas a verdade era um segredo bem guardado e só revelado a quem ficava ali o tempo suficiente para saber ouvir as confissões insurdecedoras do silêncio.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O teu irmão morreu

Quando me deram a notícia da tua morte, fiquei em silêncio, primeiro sem saber em que pensar, depois sem saber o que dizer, finalmente preparando-me para dizer uma banalidade, desligar depressa o telefone e cair a chorar no chão

- depois falamos melhor, ainda temos muito tempo

acho que terias ficado surpreendido com esta minha reacção, apesar de teres sido a pessoa que mais me compreendeu na vida e apesar de nunca termos conseguido comunicar: andámos sempre desencontrados, quando eu me aproximei estavas demasiado ocupado a dizeres uma frase sonante e a desapareceres, quando tu te aproximaste eu estava longe, a odiar as frases sonantes que não me diziam nada, eu sempre a pensar que estavas a falar de outra coisa qualquer, a finalizar a conversa de forma curta e simples, tu destroçado porque pensaste que eu tinha compreendido

- estou muito doente, estou muito doente

viveste a tua vida de maneira perigosa, sem medo de nada a não ser dos fantasmas que sempre te atormentaram, hoje estás finalmente livre de todos eles e invejo-te por isso, sem os mitos ou as pressões para respeitares o legado do pai ou da família, sem a gente invejosa e mesquinha que pulula por este mundo, agora apenas lamento a nossa última conversa

- sempre gostei muito de ti, depois falamos melhor, ainda temos muito tempo

não sei porque disse isso, ambos sabíamos que já não havia tempo, foi mais uma coisa estúpida de se dizer, quando podia antes ter dito que a única coisa que eu sempre quis na vida foi um elogio teu, a tua permissão, a tua preocupação, podias ter ficado a saber que era nos teus braços que eu me sentia verdadeiramente seguro

- sempre gostei muito de ti

tu disseste que sabias, mas hoje não sei se nessa altura sabias mesmo, ou se em algum momento da tua vida soubeste, eu terminei novamente a conversa de forma curta e simples, tu choraste e eu devo ter dito mais um par de banalidades, quando devia mesmo era ter-te contado que foste o meu herói, para depois falarmos das coisas importantes que sempre nos passaram ao lado.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Insónia

Passo a maior parte das minhas noites de olhos bem abertos e os móveis do quarto acompanham a minha insónia: um pequeno candeeiro pousado em cima da mesa de cabeceira que irradia uma luz cor de sangue e um espelho grande na parede nua que não reflecte nada nem ninguém. Ao centro, a cama silenciosa e triste, sempre à espera que se sirvam dela, tal prostituta velha que só espera o fim da noite.

A certa altura há uma música que começa a tocar, uma qualquer valsa vinda dos salões luxuosos de alguns séculos atrás. A cadeira de baloiço solitária, debaixo de espelho, repete em êxtase o mesmo gesto monótono ao som do rinchar compassado dos pés estendidos contra o chão de madeira. Na parede escura junto à porta, as pinturas deformadas dos quadros abstractos parecem querer libertar-se do seu sonho imaginário e tomar conta do mundo cinzento cá de fora. As cortinas cheias de flores tapam completamente a janela e, com ela, as mil luzes da cidade – do meio dos desenhos, em vez do jardim, aparecem caras horríveis a suplicar por clemência, soltando gritos mudos e pedindo-me ajuda. Eu escondo-me debaixo dos lençóis e adormeço cobardemente, como se tudo aquilo fosse apenas fantasia.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Se eu morresse hoje

Se eu morresse hoje não sentirias muito a minha falta, todos a darem-te atenção a dobrar, muito mais protegida e mimada sem entenderes a razão, a apontares para os homens das revistas parecidos comigo, mais tarde terás de viver com os mesmos traumas que eu, mas para já só acordas a meio da noite com um pesadelo e a chamares por essa palavra proibida lá em casa

- pai, pai, onde está o pai?

tu a contares aterrorizada os dias que faltam para o Dia do Pai, onde todos na escola fazem cartões com corações para dar aos pais, onde todos falam de tudo sobre os pais, tu envergonhada num canto a implorar que ninguém repare em ti, mas quando chega a tua vez de falar atrapalhas-te e os olhos do mundo fixam-se em ti,

- não tens pai?

como se fosses um bicho raro numa feira de curiosidades, a professora a querer saber todos os pormenores sórdidos, todos virados para ti com os olhos bem abertos à espera que uma lágrima tua os console e complete o espectáculo, a certa altura fazes-lhes a vontade, todos ficam finalmente sossegados, eles para sempre a olhar para ti com pena e caridade, tu a odiar essa palavra que gostarias que não existisse

- pai, ela não tem pai, não tens pai?

os amigos e família vão passar o tempo a falar-te das minhas qualidades, como se eu não tivesse defeitos, como se os meus continuados falhanços não tivessem importância, tu com raiva de quem se atreveu a falar mal de mim, mas com mais raiva ainda desse mito que não te deixa respirar e que te pesa mil toneladas em cima dos ombros, a tentares ser a sombra de alguém que nunca existiu, tu num canto qualquer a dizeres baixinho essa palavra sagrada e profana

- pai, pai, pai...


Nota: O blog Orgulhosamente Mau Feitio teve a gentileza de dar a este texto o primeiro prémio num passatempo que realizou. Os meus humildes agradecimentos. Aconselho os meus leitores a visitarem este blog, que está muito bem concebido.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Metamorfose

Fiquei ali deitado na escuridão, sem fechar os olhos. O corpo prostrado em qualquer canto, a alma dorida e esterelizada com antidepressivos. Nada de novo para ver, arco-íris macronomáticos, problemas sem resposta, soluções sem significado, verdades cheias de mentira, o passado inundado de gente desconhecida, o futuro submerso num buraco negro.  

Fiquei ali deitado na escuridão, mas com os olhos bem abertos. Uma minúscula voz dentro de mim grita alto, num último suspiro, insistindo para que eu resista. Cada movimento da minha respiração é um hino de fortaleza que vai crescendo a cada segundo, por isso inspiro antes de me afundar e o ar que expiro é um farol que me guiará à paz grandiosa dos salmos.

Fecha os teus olhos neste instante, agora sente-me, apenas tu e eu, sente a tua tatuagem na minha alma, ouve os segredos que ando a guardar para ti, saboreia os suspiros que me incriminam, olha bem para a minha luz na escuridão e repara que assim consegues ver-me como sempre desejaste que eu fosse.

Fecho os meus olhos neste instante, sinto-te agora, apenas eu e tu, não sei em que parte de mim estás, mas ouço o mar à minha frente, sinto o teu gosto a sal na minha boca, a doce brisa do nosso amor acaricia-me a face e finalmente consigo ver-te como sempre sonhei que serias.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Chuva de Maio

Lá fora a chuva caía e as gotas de àgua molhavam o betão quente da escola. Em pouco tempo, o calor dum Maio impaciente era substituído pela melancolia do barulho da chuva fresca lá fora. Aqueles eram os dias do fim dos tempos. Estávamos todos quase a padecer de uma doença incurável chamada idade adulta. A partir daí passaríamos a partilhar as horas num escritório com pessoas que nunca nos diriam nada e cujo único ponto em comum seria pisarmos os mesmos metros quadrados de carpete.

A vida era uma montanha russa em que tínhamos acabado de entrar e da qual sairíamos inevitavelmente em pouco tempo. O coração batia de excitação, de surpresa, de satisfação, batia por tudo e por nada, num mistério delicioso e surpreendente que não queríamos descobrir. Vivíamos todos num filme com uma banda sonora que nos inspirava e éramos os personagens principais de uma história interminável repleta de romance, fantasia, suspense, aventura e tudo o que fazia o mundo girar. Todos tínhamos segredos fantásticos, paixões destemidas, todos sempre juntos no amor, na tristeza, nos sonhos e nas lágrimas da chuva de Maio. Tudo acabou no último dia de aulas, num qualquer toque de campaínha. Na altura não nos apercebemos que era o início duma batalha letal da qual nenhum de nós sobreviveu.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O meu conto de fadas

Conhecemo-nos numa daquelas festas intermináveis em casa de um dos teus amigos da alta sociedade. Na primeira vez que te vi, não pude prestar grande atenção (hoje dirias que foi um triste prenúncio) porque estava a fazer conversa, a beijar e a ser beijada por pessoas que nunca tinha visto na vida. Todas a gente daquelas festas queria ser alguma coisa (ainda não sei o que queres fazer da vida), os homens vestidos com os fatos mais baratos das marcas mais caras, as mulheres sempre provocantes com cabelos longos impecáveis e roupas apertadas. Não havia ninguém sem um copo na mão. Foi assim que olhei para ti pela primeira vez (sei que nunca mais pensaste nisso), os brindes a comporem a habitual banda sonora do som dos vidros a baterem uns nos outros, eu a beber cocktails e a entregar os copos a um pobre diabo que fingia estar interessado em mim, tu no bar a pedir duas ou três bebidas de uma só vez.

Quando me pediste para dançar, só eu parecia estar ligeiramente alegre. Foi a única vez que me apertaste junto a ti da forma certa, como um homem a sério deve apertar uma frágil donzela (tu sempre achaste que eu devia ser uma segunda mãe). Confundiste-me - ou foi o álcool, já não sei nada. A partir daquele momento fiquei eternamente tua, apesar de todos os homens a sério que depois me quiseram, apesar de te teres continuado a encontrar com as mulheres fáceis daquelas festas ridículas, apesar de desde o início nunca ter duvidado que todos estes anos seriam um desperdício. A tua mãe sempre em nossa casa, a fingir-se de doente, a querer ser a tua única e verdadeira mãe, eu no psicanalista a tentar procurar na infância a resposta para as minhas depressões, tu numa qualquer bar a pedir duas ou três bebidas de uma só vez.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O amor

Quero amar mas estou farto desta palavra que afinal não significa nada e a cada dia vejo que tudo é impossível porque alguém como eu nunca se libertará. Já tive demasiados amores eternos e juras românticas, agora quero um amor que não signifique nada, sem regras nem conceitos, sem palavras nem significados, sem sentimentos nem culpas. Quero um amor que desafie os meus sonhos para que não existam mais barreiras, que não me alegre no inicio para que não me quebre no final.

Já aprendi muito nos dias de dor e ressentimento e saudade e paranóia e mágoa, agora apenas eu ditarei as leis do amor. Tudo o que sou e tudo o que sempre fui estão no que aprendi até agora, por isso agora não quero que me leiam a palma da mão, não quero mais lições, não quero que me indiquem o caminho ou me falem da verdade, quero apenas ficar aqui no chão sem esperar que alguém se deite ao meu lado.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Prisão Perpétua

A noite que nunca deveria ter acontecido reaparece sempre em qualquer instante antes do início da madrugada. A primeira amante, o contacto primordial, o toque ingénuo, tudo faz parte do fim da inocência, o fim de tudo. Trocava a minha alma para que nada tivesse acontecido, para que pudesse ser saudável outra vez, para poder ver o arco-íris no céu estrelado como antigamente. Dava tudo para ter aqui o sonho perdido daquela infância pacífica, o suspiro ansioso por uma juventude que nunca iria terminar, o riso solto e livre de quem não se sentia comprometido com nada nem ninguém. Agora estou preso dentro duma minúscula caixa quadrada que cerca completamente o meu tronco dobrado e esmaga todas as partes deste corpo sufocado e clautrofóbico.

Tudo ficou sujo desde então, com uma podridão que me impregna os ossos e a carne e o espírito e a mente. Todos se tornaram feios e tristes - e eu fiquei a fazer parte de toda a porcaria que se esconde por baixo das unhas do mundo. Sou apenas mais um animal, pintado com a mesma cor monótona e submissa, desenhado como um grão de areia, num pequeno quadro, esquecido no canto mais frio dum quarto sem portas nem janelas. Fui apenas mais um. Sou apenas mais um.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Outono

O Outono deslizava lentamente pelo pequeno oásis da grande cidade. Era um parque cheio de plantas cultivadas e cuidadas pela Câmara, mas que resistiam teimosamente à intervenção humana e faziam crescer filhas rebeldes por entre os inanimados bancos de pedra. As àrvores dançavam nuas uma música sensual tocada sem pudor pelo vento e as gotas de chuva, que vinham do céu, refrescavam os troncos lascivos sob a terra seca e libertavam um cheiro puro de amor selvagem. Até as flores clonadas, artificiais, desinteressantes, pareciam descobrir instintos nunca imaginados e as ervas daninhas, primitivas, primárias, começavam a encontrar o ritmo da dança.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A peixeira

De repente, ela aparece por detrás da banca do peixe, uma simples peixeira.

Os olhos negros, profundos como o mar, falam uma língua perdida no tempo e contam a história duma criança orfã, criada no fundo do oceano por um povo feliz que só entende a força da paz, da harmonia e da verdadeira beleza. Um dia alguém apareceu e escravizou o seu povo, arrancou-a de casa e obriga-a a ficar por detrás da banca do peixe.

Corta delicadamente a cabeça do animal e raspa as escamas, cada gesto tem um significado e cada suspiro é uma observação, pega docemente no bicho morto e inicia devagar um ritual de agradecimento e pede perdão pelo triste fim de vida.

Perto dela o tempo pára e quando se afasta nada volta a ser o mesmo, os passos deslizam suavemente pelo chão, como uma pena docemente empurrada pela brisa da manhã, a pele branca e suave, tão branca e luminosa.

A colega do lado corta o peixe sem remorsos, em facadas violentas e desprovidas de sentido, tira as tripas, amassa, esfaqueia outra vez, reprime a inveja com golpes assassinos. Ela não, tenho a certeza que já a ouvi murmurar uma oração por aquelas pequenas almas, sei que carrega o peso da sua morte em beneficio duma espécie desprezível.

De repente fui-me embora, não a libertei do castigo arbitrário, tive que me ir embora, ela é uma simples peixeira.