quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
O Velho
sábado, 27 de dezembro de 2008
O meu conto de Natal
Um dia a Morte cansou-se, parou por uns instantes e sentou-se sobre uma pedra. Olhou em redor e viu crianças felizes a tomarem banho num riacho de àguas refrescantes, coberto de peixes de todos os tamanhos, cercado por flores de todas as cores e debaixo de laranjeiras perfumadas. Sentiu o aconchegante calor do vento da manhã e quando irrompeu um raio de sol por dentro do seu hábito negro, desatou a chorar.
Naquele preciso instante, apareceu um pequeno menino de cabelos pretos e olhar luminoso. Sem medo, pegou na ceifa como se fosse um brinquedo e aliviou um pouco do peso da Morte, que se fixou assustada nos seus olhos e escondeu um choro iminiente, finalmente perguntando com uma voz rouca e grossa:
- Mas tu não sabes quem eu sou?
- Sei, claro – respondeu o menino
- Mas então porque não tens medo de mim como todos os outros?
E o menino apontou para uma estrela que se via em pleno dia, em cima de uma manjedoura onde uma multidão silenciosa rodeava um casal humilde e uma criança acabada de nascer. A Morte aproximou-se, parou e, pela primeira vez desde a criação do mundo, esboçou um sorriso. Pegou na ceifa e foi-se embora revitalizada fazer o seu trabalho. Nada mais seria como dantes.
sábado, 20 de dezembro de 2008
Sonho de Amor
- já deu o toque de entrada, não vens?
ela a flutuar como uma pena e a iluminar o mundo à sua volta, eu ancorado ao chão, a contemplar cada gesto como se fosse a poesia mais bela feita por um deus desconhecido, ela a aproximar-se em direcção a mim e eu cada vez mais afundado, a querer desaparecer para reaparecer como alguém especial, ela quase a chegar e eu transpirar, a tremer, a face cada vez mais vermelha, o coração a tentar sair à força do peito
- anda embora para as aulas, o que tens?
ela a passar por mim, ignorando-me como das outras vezes, eu aliviado, a pulsação a voltar ao normal, eu transtornado, secretamente inconsolável por ser mais pequeno que o mais pequeno dos insectos, ela a afastar-se e o mundo cinzento a voltar ao normal, eu a regressar às aulas mas com uma lição muito mais importante aprendida, o final das histórias fantásticas de aventura nunca seria real.
sábado, 13 de dezembro de 2008
A praia
Sento-me nas rochas. A brisa fresca percorre a minha cara nua e inunda-me o corpo com um arrepio húmido. As ondas compõem o som da eternidade sobre a areia molhada, deslizam devagar, dançam melancolicamente entre si. Surge um rebentamento, depois outro, num violento movimento que não pára e em cada choque há pequenas pedras projectadas para junto de mim. Finalmente arrependidas, as ondas voltam a casa, felizes por sentirem o doce aconchego do mar. E eu quase juro ver sereias a nadar na quietude do amanhecer, sem ninguém que compreenda a sua existência, guiardiãs nocturnas da paz marítima, merecedoras de descanso depois de mais uma noite calma.
Descalço pela areia fina, percorro as minúsculas marcas das gaivotas. Atrás de mim, coladas à ponta dos calcanhares, perseguem-me pegadas fundas e frias, penetrando na areia com o som furioso de golpes de faca. Por mais que ande depressa, por mais que corra, perseguem-me até chegar junto da àgua. Molho os pés e desaparecem, tudo se esvanece. Acordo. Gelado, a tremer de frio, volto à civilização dos homens, longe das aventuras temerárias, dos mapas de tesouro, das caravelas destemidas e de toda a hipótese da vida vir a fazer sentido.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
O quarto do Padre
Cá fora, o meu quarto era uma cela rúde, àspera e fria, parecendo mais pequeno à medida que os segundos passavam e se tornam horas, dias e meses. Vozes silenciosas vinham de todos os lados, com excepção de um crucifixo morto pendurado em cima da cama gelada. Do lado esquerdo ainda havia espaço para uma mesa vestida com uma bíblia e uma cadeira de madeira pôdre. De vez em quando as paredes choravam lágrimas de dor e solidão – parecia apenas humidade, mas a verdade era um segredo bem guardado e só revelado a quem ficava ali o tempo suficiente para saber ouvir as confissões insurdecedoras do silêncio.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
O teu irmão morreu
- depois falamos melhor, ainda temos muito tempo
acho que terias ficado surpreendido com esta minha reacção, apesar de teres sido a pessoa que mais me compreendeu na vida e apesar de nunca termos conseguido comunicar: andámos sempre desencontrados, quando eu me aproximei estavas demasiado ocupado a dizeres uma frase sonante e a desapareceres, quando tu te aproximaste eu estava longe, a odiar as frases sonantes que não me diziam nada, eu sempre a pensar que estavas a falar de outra coisa qualquer, a finalizar a conversa de forma curta e simples, tu destroçado porque pensaste que eu tinha compreendido
- estou muito doente, estou muito doente
viveste a tua vida de maneira perigosa, sem medo de nada a não ser dos fantasmas que sempre te atormentaram, hoje estás finalmente livre de todos eles e invejo-te por isso, sem os mitos ou as pressões para respeitares o legado do pai ou da família, sem a gente invejosa e mesquinha que pulula por este mundo, agora apenas lamento a nossa última conversa
- sempre gostei muito de ti, depois falamos melhor, ainda temos muito tempo
não sei porque disse isso, ambos sabíamos que já não havia tempo, foi mais uma coisa estúpida de se dizer, quando podia antes ter dito que a única coisa que eu sempre quis na vida foi um elogio teu, a tua permissão, a tua preocupação, podias ter ficado a saber que era nos teus braços que eu me sentia verdadeiramente seguro
- sempre gostei muito de ti
tu disseste que sabias, mas hoje não sei se nessa altura sabias mesmo, ou se em algum momento da tua vida soubeste, eu terminei novamente a conversa de forma curta e simples, tu choraste e eu devo ter dito mais um par de banalidades, quando devia mesmo era ter-te contado que foste o meu herói, para depois falarmos das coisas importantes que sempre nos passaram ao lado.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Insónia
A certa altura há uma música que começa a tocar, uma qualquer valsa vinda dos salões luxuosos de alguns séculos atrás. A cadeira de baloiço solitária, debaixo de espelho, repete em êxtase o mesmo gesto monótono ao som do rinchar compassado dos pés estendidos contra o chão de madeira. Na parede escura junto à porta, as pinturas deformadas dos quadros abstractos parecem querer libertar-se do seu sonho imaginário e tomar conta do mundo cinzento cá de fora. As cortinas cheias de flores tapam completamente a janela e, com ela, as mil luzes da cidade – do meio dos desenhos, em vez do jardim, aparecem caras horríveis a suplicar por clemência, soltando gritos mudos e pedindo-me ajuda. Eu escondo-me debaixo dos lençóis e adormeço cobardemente, como se tudo aquilo fosse apenas fantasia.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Se eu morresse hoje
- pai, pai, onde está o pai?
tu a contares aterrorizada os dias que faltam para o Dia do Pai, onde todos na escola fazem cartões com corações para dar aos pais, onde todos falam de tudo sobre os pais, tu envergonhada num canto a implorar que ninguém repare em ti, mas quando chega a tua vez de falar atrapalhas-te e os olhos do mundo fixam-se em ti,
- não tens pai?
como se fosses um bicho raro numa feira de curiosidades, a professora a querer saber todos os pormenores sórdidos, todos virados para ti com os olhos bem abertos à espera que uma lágrima tua os console e complete o espectáculo, a certa altura fazes-lhes a vontade, todos ficam finalmente sossegados, eles para sempre a olhar para ti com pena e caridade, tu a odiar essa palavra que gostarias que não existisse
- pai, ela não tem pai, não tens pai?
os amigos e família vão passar o tempo a falar-te das minhas qualidades, como se eu não tivesse defeitos, como se os meus continuados falhanços não tivessem importância, tu com raiva de quem se atreveu a falar mal de mim, mas com mais raiva ainda desse mito que não te deixa respirar e que te pesa mil toneladas em cima dos ombros, a tentares ser a sombra de alguém que nunca existiu, tu num canto qualquer a dizeres baixinho essa palavra sagrada e profana
- pai, pai, pai...
Nota: O blog Orgulhosamente Mau Feitio teve a gentileza de dar a este texto o primeiro prémio num passatempo que realizou. Os meus humildes agradecimentos. Aconselho os meus leitores a visitarem este blog, que está muito bem concebido.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Metamorfose
Fiquei ali deitado na escuridão, mas com os olhos bem abertos. Uma minúscula voz dentro de mim grita alto, num último suspiro, insistindo para que eu resista. Cada movimento da minha respiração é um hino de fortaleza que vai crescendo a cada segundo, por isso inspiro antes de me afundar e o ar que expiro é um farol que me guiará à paz grandiosa dos salmos.
Fecha os teus olhos neste instante, agora sente-me, apenas tu e eu, sente a tua tatuagem na minha alma, ouve os segredos que ando a guardar para ti, saboreia os suspiros que me incriminam, olha bem para a minha luz na escuridão e repara que assim consegues ver-me como sempre desejaste que eu fosse.
Fecho os meus olhos neste instante, sinto-te agora, apenas eu e tu, não sei em que parte de mim estás, mas ouço o mar à minha frente, sinto o teu gosto a sal na minha boca, a doce brisa do nosso amor acaricia-me a face e finalmente consigo ver-te como sempre sonhei que serias.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Chuva de Maio
terça-feira, 11 de novembro de 2008
O meu conto de fadas
Quando me pediste para dançar, só eu parecia estar ligeiramente alegre. Foi a única vez que me apertaste junto a ti da forma certa, como um homem a sério deve apertar uma frágil donzela (tu sempre achaste que eu devia ser uma segunda mãe). Confundiste-me - ou foi o álcool, já não sei nada. A partir daquele momento fiquei eternamente tua, apesar de todos os homens a sério que depois me quiseram, apesar de te teres continuado a encontrar com as mulheres fáceis daquelas festas ridículas, apesar de desde o início nunca ter duvidado que todos estes anos seriam um desperdício. A tua mãe sempre em nossa casa, a fingir-se de doente, a querer ser a tua única e verdadeira mãe, eu no psicanalista a tentar procurar na infância a resposta para as minhas depressões, tu numa qualquer bar a pedir duas ou três bebidas de uma só vez.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O amor
Já aprendi muito nos dias de dor e ressentimento e saudade e paranóia e mágoa, agora apenas eu ditarei as leis do amor. Tudo o que sou e tudo o que sempre fui estão no que aprendi até agora, por isso agora não quero que me leiam a palma da mão, não quero mais lições, não quero que me indiquem o caminho ou me falem da verdade, quero apenas ficar aqui no chão sem esperar que alguém se deite ao meu lado.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Prisão Perpétua
Tudo ficou sujo desde então, com uma podridão que me impregna os ossos e a carne e o espírito e a mente. Todos se tornaram feios e tristes - e eu fiquei a fazer parte de toda a porcaria que se esconde por baixo das unhas do mundo. Sou apenas mais um animal, pintado com a mesma cor monótona e submissa, desenhado como um grão de areia, num pequeno quadro, esquecido no canto mais frio dum quarto sem portas nem janelas. Fui apenas mais um. Sou apenas mais um.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Outono
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
A peixeira
Os olhos negros, profundos como o mar, falam uma língua perdida no tempo e contam a história duma criança orfã, criada no fundo do oceano por um povo feliz que só entende a força da paz, da harmonia e da verdadeira beleza. Um dia alguém apareceu e escravizou o seu povo, arrancou-a de casa e obriga-a a ficar por detrás da banca do peixe.
Corta delicadamente a cabeça do animal e raspa as escamas, cada gesto tem um significado e cada suspiro é uma observação, pega docemente no bicho morto e inicia devagar um ritual de agradecimento e pede perdão pelo triste fim de vida.
Perto dela o tempo pára e quando se afasta nada volta a ser o mesmo, os passos deslizam suavemente pelo chão, como uma pena docemente empurrada pela brisa da manhã, a pele branca e suave, tão branca e luminosa.
A colega do lado corta o peixe sem remorsos, em facadas violentas e desprovidas de sentido, tira as tripas, amassa, esfaqueia outra vez, reprime a inveja com golpes assassinos. Ela não, tenho a certeza que já a ouvi murmurar uma oração por aquelas pequenas almas, sei que carrega o peso da sua morte em beneficio duma espécie desprezível.
De repente fui-me embora, não a libertei do castigo arbitrário, tive que me ir embora, ela é uma simples peixeira.